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Publicado el November 17th, 2008, 10:19

Genética

Mayana Zatz

Geneticista e diretora do Centro de Estudos do Genoma Humano (USP) |mayanazatz.ciencia@gmail.com

Fonte: http://veja.abril.com.br/blog/genetica/

Muita informação e pouco conhecimento

Há algum tempo expresso minha preocupação em relação à informação gerada pelo seqüenciamento do genoma humano. Empresas particulares já anunciam que em 2009 será possível seqüenciar o genoma de uma pessoa por 5.000 dólares. Imagino que muita gente vá querer descobrir a possibilidade de desenvolver determinadas doenças. A maioria das pessoas não sabe, porém, que será gerada uma quantidade enorme de informação sobre a qual, nós geneticistas temos muito pouco conhecimento. Esse assunto foi amplamente debatido no fórum Ciência, Tecnologia e Sociedade, do qual participei em Kyoto, Japão, no mês passado.

Empresas particulares defendem seu peixe
Os diretores de empresas particulares, que prevêem um negócio altamente lucrativo, tentam nos convencer de que as pessoas dispostas a pagar pelo DNA seqüenciado podem escolher entre as possíveis informações. Por exemplo, doenças ainda sem tratamento, como a doença de Alzheimer ou Parkinson. Algumas pessoas alegam que querem saber para poder se preparar, enquanto outras - eu sou uma dessas - preferem não saber, enquanto não houver tratamento preventivo.

E no caso de diagnóstico pré-natal?
E se as pessoas começarem a seqüenciar o DNA dos seus fetos, no início da gestação? Em países onde o aborto é permitido, essas informações poderiam determinar se o casal vai querer continuar ou interromper uma gravidez. Entretanto, pesquisas em doenças genéticas têm nos mostrado, constantemente, que pessoas com a mesma mutação - ou erro genético - podem ter quadros distintos. Desde formas graves até ausência total de sintomas. Só conseguimos saber isso após descobrir que alguns adultos, portadores de mutações genéticas consideradas deletérias (responsáveis por doenças genéticas), eram totalmente saudáveis. E se encontrarmos uma mutação em um feto, como poderemos prever se ele irá ou não desenvolver uma doença? Vamos gerar informação ou uma gigantesca angústia? Pois bem, minha preocupação não era sem sentido. Uma notícia que acaba de ser veiculada pelo site de VEJA confirma que o futuro já é presente.
 
Teste vai identificar doenças hereditárias em embriões
Um novo teste de mapeamento genético, que permite saber se o embrião implantado no útero por meio de inseminação artificial é portador de alguma doença hereditária, pode estar disponível já no próximo ano, afirmaram cientistas britânicos em outubro. O anúncio foi feito pela equipe do instituto de pesquisas Bridge Centre de Londres. "Uma das principais vantagens para o paciente é que, muitas vezes, não há um teste para uma condição específica. Este é um teste único - um método universal", afirmou à rede britânica BBC o professor Alan Handyside, que desenvolveu o teste. "Casais que pretendem ter filhos por meio de inseminação artificial poderão, caso estejam dispostos a desembolsar 1.500 libras (aproximadamente 5.490 reais), realizar no embrião o teste que detecta quase todas as 15.000 doenças hereditárias existentes. Atualmente, os testes são capazes apenas de identificar 2% dessas doenças."

E o pior de tudo…
"Handyside também explicou que, além de verificar sinais associados a doenças hereditárias, o teste pode ser usado para detectar o perfil genético da pessoa, determinando o grau de suscetibilidade a doenças cardíacas ou câncer." Imaginem só. Se já temos dificuldades de prever o futuro com doenças genéticas causadas por uma única mutação o que dirá de características que dependem da interação de muitos genes com o ambiente, como é o caso das doenças cardíacas ou câncer? Enquanto não tivermos um grande banco de dados obtidos a partir do DNA de pessoas idosas saudáveis, vamos precisar de muitas bolas de cristal.

Por InfoBatista, en: General