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Publicado el November 17th, 2008, 5:45

Neuroses eclesiásticas

As Más Notícias

Uma Análise Preliminar

A hora agora é de recebermos notícias más, e nunca é agradável falar de coisas ruins. Mas vamos acreditar no que o Senhor Jesus disse: "a verdade vos libertará" - mesmo se essa verdade não for tão bonita quanto gostaríamos que fosse. Como compensação, na hora das boas notícias, novamente será a verdade quem vai nos ajudar.

Antes, porém, de falar dos nossos problemas, quero aqui reconhecer e testemunhar que a Igreja faz muito bem para muita gente. Ao longo de 2.000 anos de Cristianismo, são muitas as pessoas que encontraram na igreja o caminho do evangelho de Jesus Cristo, endireitaram suas vidas, recuperaram-se socialmente, emocionalmente, e passaram a viver muito melhor o restante de
suas vidas nesta terra, sem falar na vida eterna nos céus. Isso não pode e nem pretende ser negado aqui. O convite deste livro é para observarmos a verdade de que, além de ter feito bem a muita gente, essa mesma igreja também tem feito muitas pessoas sofrerem - inclusive nós mesmos, às vezes. No dizer do apóstolo Paulo, "se nós julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados" (I Co 11.31). Esta é a intenção deste livro: um auto-julgamento, na esperança de, com a ajuda de Deus nesse auto-exame, virmos a ser mais aperfeiçoados, cristãos melhores e mais saudáveis.

O MAL-ESTAR DA IGREJA

A má notícia é que não estamos tão bem assim. Embora muitos líderes de grandes congregações e ministérios pensem de modo diferente, as constatações de muitos gabinetes pastorais e de também de consultórios psicológicos se juntam às daqueles que sentem que a igreja não está bem. E não está bem porque os crentes não estão bem.

No meio de uma sociedade que vai adoecendo seus relacionamentos, a Igreja não tem se saído muito melhor. Buscamos aqui as "neuroses de igreja" - ou "neuroses eclesiogênicas" - adoecimentos, especialmente emocionais, que são típicos de quem participa da vida de uma igreja, e ali aprendeu a se relacionar com Deus. Neuroses são definidas como um adoecimento de
origem psicológica, em que os sintomas (o comportamento que se vê) são a expressão simbólica de um conflito psíquico. Não tenho a pretensão de fazer uma análise completa e abrangente de todos os quadros e tipos - nossas igrejas diferem muito entre si e minha capacidade é bastante limitada. Mas há sinais de doença emocional mais evidentes e que trazem sofrimento a muitos - vamos tentar nos focar nestes.

Não se pode considerar uma igreja boa quando seus membros não se sentem bem. Muitas vezes os membros das igrejas parecem presos a uma estrutura circular, repetitiva, em que só podem receber a graça de Deus os que estão muito mal, muito necessitados ou infantilizados (como, por exemplo, os que fazem fila para receber a unção ao final dos cultos dos irmãos neopentecostais,
ou os que pedem oração publicamente nos cultos dos irmão tradicionais). Enquanto isso, a igreja incentiva testemunhos de vitória, exemplos de seriedade e compromisso, grandes conquistas, coisa que crentes infantes se sentem incapazes de oferecer. As igrejas podem até estar cheias, mas o que aconteceria se, apenas como exemplo, desligássemos os microfones e os instrumentos musicais?

Os crentes provavelmente "acordariam" para sua realidade, se perceberiam mais distantes uns dos outros, sem muita coisa para assistir, mais abandonados e carentes do que realmente lhes faria bem - contato real, humano, amoroso e edificante - e provavelmente muitos se afastariam das reuniões. Mas essas constatações de um mal-estar na igreja precisam de mais fundamento.

Que sinais enxergamos do mal-estar entre os crentes?

Loucura?

Um sinal bastante intrigante é encontrado nos sanatórios, hospitais psiquiátricos para doentes mentais em estado grave. Embora atualmente muito combatidos (por boas razões, diga-se), os sanatórios também estão cheios, e com muitos irmãos evangélicos entre os pacientes. Isso poderia apontar duas coisas: ou a igreja estaria enlouquecendo as pessoas que a procuram, ou talvez a igreja seria procurada por pessoas que estão enlouquecendo e não consegue
recuperar sua saúde mental. É claro que isso não é tão simples assim - em muitos casos a igreja alivia o sofrimento psicológico dos que a procuram. Para nosso propósito, por enquanto, tomemos os sanatórios cheios de evangélicos apenas como um sinal de que algum problema deve haver; mas ainda não é suficiente para concluirmos nada.

Frustração?

Um segundo sinal: o mundo está cheio de ex-crentes. Já nos anos 80, segundo o Jornal Batista, o número de ex-batistas no Brasil era praticamente igual ao número de batistas na ativa. Muito provavelmente isso também se aplica às demais denominações evangélicas tradicionais. Com o fenômeno das igrejas neopentecostais, uma nova safra de crentes evangélicos inundou o Brasil e, à medida que os anos passam e as promessas de prosperidade não se cumprem, uma nova safra de ex-crentes decepcionados deve estar voltando para as ruas, enquanto outros crentes começam uma "peregrinação" de igreja em igreja, intuindo que há alguma verdade salvadora nesse meio, mas não se sentindo seguros de a ter localizado. Essa massa de irmãos freqüenta as "igrejas da moda", que são duramente criticadas pelas igrejas mais estabelecidas, que não
admitem sua parte de culpa nessa decepção coletiva.

Esse já é um sinal mais direto. Não esperamos que a igreja satisfaça a todos que a procuram. Mas decepcionar a tantas pessoas, dentre a pequena parcela da população que se decide a entrar nela, é sem dúvida mais um indicador de que há problemas sérios que não estão sendo tratados, uns nas igrejas tradicionais, outros nas pentecostais.

Karl Kepler, psicólogo, pastor, professor de Teologia e presidente do CPPC (Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos).

Fonte: http://pavablog.blogspot.com/2008/11/neuroses-eclesisticas-1.html

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