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Publicado el November 21st, 2008, 11:36

Genética - Mayana Zatz - Geneticista e diretora do Centro de Estudos do Genoma Humano (USP) |mayanazatz.ciencia@gmail.com

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Por Mayana Zatz - 23:03 | Enviar Comentário | Ler Comentários (30)  

Sexta-feira, 24 de Outubro de 2008

Diagnóstico genético pré-implantacional

Diversas clínicas de fertilização assistida no Brasil realizam o diagnóstico genético pré-implantacional para evitar doenças genéticas, ou por outros motivos mais fúteis, como escolha do sexo do bebê. Existem ainda casos de pais que desejam gerar um segundo filho para servir de doador de células-tronco para o irmão doente, ou casos de pais surdos que desejam gerar um filho também surdo, e para isso se socorrem das técnicas de 'diagnóstico genético pré-implantacional'. Qual a sua opinião sobre isso?
(Tiago Landi Simões)

Sou a favor do diagnóstico pré-implantação (DPI) para evitar doenças genéticas, mas não por motivos fúteis, como escolha de sexo. Esse procedimento também não é aprovado na Inglaterra ou Estados Unidos. Em Israel, depois de muita discussão chegou-se a seguinte decisão: se um casal tiver quatro filhos do mesmo sexo, e quiser uma quinta criança permite-se que utilizem o diagnóstico pré-implantação para escolha de sexo. Para quem não sabe, o DPI é uma técnica que depende da fertilização 'in vitro', ou fora do útero. Se ela for bem sucedida, quando o embrião tem de 8 a 16 células, é possível retirar uma ou duas e determinar o sexo desse embrião e escolher qual será implantado.

Pais surdos querem ter filhos surdos?
É comum pais surdos desejarem gerar um filho também surdo. Também já acompanhei casais onde o pai e a mãe eram acondroplásicos (a forma mais comum de nanismo) e eles não queriam ter um filho de estatura normal. Para quem tem audição ou estatura normal parece um absurdo. Teríamos sido rejeitados por esses pais. Embora não aprove, é claro, consigo entender o ponto de vista deles. É muito mais fácil para um casal deficiente auditivo comunicar-se com alguém que também não ouve ou construir uma casa onde todos são igualmente anões. Por outro lado, se esses casais querem ter filhos semelhantes a eles, isso é muito positivo. Significa que estão bem adaptados e felizes apesar de serem diferentes.

Herança não genética
Refiro-me aqui à herança patrimonial, não genética. Lembro-me do caso de Huan, um caso muito polêmico discutido em aulas de genética. Huan queria a todo custo fazer uma fertilização assistida e selecionar embriões de sexo masculino para serem implantados em sua mulher. Estava decidido a pagar qualquer preço para consegui-lo. O motivo era simples. Ele era o filho mais velho de uma família muito rica, mas de acordo com a tradição de seu país ele só herdaria a fortuna dos pais se tivesse um descendente de sexo masculino. Caso contrário o herdeiro seria seu irmão mais novo que já tinha um filho varão. Acontece que Huan tinha três filhas e corria o risco de ver seu pai morrer antes de ter um descendente de sexo masculino nascido de reprodução natural. Não podia correr esse risco. Ao procurar o serviço de genética foi lhe dito que não seria possível fazer a seleção de embriões simplesmente por gênero. Huan então informou que procuraria outra saída, que poderia ser pior.

Diagnóstico prénatal e interrupção de gestação
Qual era a alternativa proposta por Huan? Já que não poderia contar com os serviço de reprodução assistida para seleção de embriões, ele comunicou então que iria engravidar a mulher e fazer um diagnóstico pré-natal para determinar o sexo do feto. Essa prática hoje é rotina. Se fosse do sexo feminino, iria interromper a gestação e assim sucessivamente até conseguir um feto de sexo masculino.

O que fazer em uma situação dessas?
Ignorar e ser implicitamente co-responsável por uma interrupção de gestação caso se trate de um feto feminino ou decidir pelo menor dos males e aceitar realizar a seleção e implantação de embriões do sexo masculino? O que você faria? Eu não tenho a resposta.

Por InfoBatista, en: General