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Publicado el November 21st, 2008, 11:12

 

Da esquerda para direita, os pastores Marcos Stier Calixto, Jaziel Guerreiro Martins, Uipirangi Câmara e Eduardo Getão
Da esquerda para direita, os pastores Marcos Stier Calixto, Jaziel Guerreiro Martins, Uipirangi Câmara e Eduardo Getão
Cuidado com o andor porque o santo é de barro (Ou, cuidado com o ardor, porque o Deus é fabricado)

Uipirangi Câmara[1]

Meus filhinhos, cuidado com os falsos ídolos[2]! I João 5.21

            O presente texto é incluído geralmente na categoria de carta, embora lhe faltem elementos constitutivos para tal (saudação, destinatário,etc). Fato esse que, segundo alguns estudiosos, faz com que o texto se assemelhe mais a um sermão. O autor não diz seu nome, no entanto menciona detalhes como por exemplo, o fato de ter convivido com Jesus (ter tocado nele). Provavelmente esse tenha sido um dos motivos para ser associado ao apóstolo João. Há algumas discussões a respeito da data e local de onde foi escrito, parecendo haver uma certa tendência em colocar pelo fim do primeiro século, tendo como Éfeso a principal referência de localidade. Possivelmente o autor tem em mente algumas questões doutrinárias preeminentes, como por exemplo a natureza de Cristo. No entanto, quero destacar o que me parece uma dupla ênfase “a necessidade de que haja amor de fato” e de que se viva a vida cristã com Deus e não com os ídolos( incluindo-se as operações do erro). É exatamente na possibilidade de que os erros possam ser equívoco na programação interna, em vez de uma investida externa, que quero focar essa pequena reflexão. Principalmente a partir da exortação do autor aos seus leitores, de que tenham cuidado com os falsos deuses.

Quero destacar, para fins de compreensão do objetivo geral dessa reflexão, algumas expressões. A primeira delas é:

            1) heautou[3] [incluindo todos os outros casos TDNT] de um pronome reflexivo que caiu em desuso e o caso genitivo (caso dativo ou acusativo) de autos  pronome (ele mesmo, ela mesma, a si mesmo, eles ou elas mesmos, a si próprios)[5].

            2) phulasso  verbo, cujo sentido varia entre: guardar, vigiar, manter vigília, guardar ou vigiar, manter o olhar sobre: para que não escape , guardar uma pessoa (ou coisa) para que permaneça segura,  para que não sofra violência, ser despojado, etc.; proteger, proteger alguém de uma pessoa ou coisa,  guardar de ser raptado, preservar seguro e sem distúrbio,guardar de ser perdido ou de perecer, guardar a si mesmo de algo, guardar, i.e., importar-se com, tomar cuidado para não violar, observar, cuidar para não escapar, prevenir, evitar a fuga de, guardar para si (i.e., por segurança) de modo a não violar, i.e., guardar, observar (os preceitos da lei mosaica)

3) eidolon. Cujo significado pode variar entre: uma imagem (i.e. para adoração);  imagem, réplica; i.e. qualquer coisa que representa a forma de um objeto, seja real ou imaginária; usado dos espíritos dos mortos, aparições, fantasmas, espectros da mente, etc; imagem de um deus pagão; deus falso; aparência externa ou exterior, forma; derivados de eido ou oidai verbo: ver, perceber com os olhos, perceber por algum dos sentidos, perceber, notar, discernir, descobrir, ver, voltar os olhos, a mente, a atenção a algo, prestar atenção, observar, tratar algo, determinar o que deve ser feito a respeito de, inspecionar, examinar, olhar para, ver,  experimentar algum estado ou condição, ter uma entrevista com, visitar,  conhecer, saber a respeito de tudo,  adquirir conhecimento de, entender, perceber, a respeito de qualquer fato, a força e significado de algo que tem sentido definido, saber como, ter a habilidade de, ter consideração por alguém, estimar, prestar atenção a. No AT, a expressão ídolos é também comumente referente à eexpressão elowahh, Deus,  deus falso, embora a Septuaginta tenha empregado na maioria das passagens o termo grego eidolon.

Normalmente nos sentimos liberados quanto ao mandamento de manter-nos livres da idolatria, pois, fomos condicionados a pensar em ídolos apenas como figuras (imagens) de deuses (santos) em forma de pedra, madeira, etc. Nesse caso, por ausência de figuras desse tipo em nosso meio, pensamos: idólatras, são os outros. Grande equívoco. Ao se criar uma figura (imagem, imaginação, idéia) empresta-se a ela não apenas uma determinada forma, mas também características. Por ser objeto de fabricação é sempre menor de quem a fabricou. Nesse caso, quando se tenta fazer uma figura de “Deus” cai-se num reducionismo, o que logicamente, no caso de “Deus”, faz com que Ele seja privado de suas características próprias, tornando-o uma caricatura, um falso deus. No AT, por exemplo, quando da retórica de alguns profetas na referência ao ídolo quanto à sua constituição a alusão não é à imagem (a figura), mas, a sua inoperância (não ouvir, não andar, etc.), à sua caricatura.

Será então que idólatras realmente são os outros? Vejamos. Não vamos muito longe. Imagens não são feitas apenas de gesso, barro ou madeira. São feitas também de desenhos e de palavras. É possível, portanto, que numa determinada linguagem encontremos todos os constitutivos de uma imagem em barro, madeira ou gesso. Por exemplo, quando cantamos: “Quero ouvir tua voz, tocar em ti, ver tua face, ouvir teu coração, me deter em teus braços” o que fizemos? Uma imagem. Emprestamos todas as características humanas conhecidas para quem não se deixou aprisionar por nenhuma delas. Quando fazemos nossos sermões, ou nossos compêndios doutrinários e dizemos que Deus faz isso ou aquilo, age dessa ou dessa maneira e engessamos esse “dito, ensino”, fabricamos também, dessa forma uma imagem. Pensando ser a voz de Deus, poderemos ao contrário, sermos a única voz presente.

Por isso, o trocadilho temático para essa reflexão: Cuidado com o clamor, porque o Deus é fabricado!

Diante da advertência feita pelo autor de I João, gostaría de propor, nessa reflexão, um olhar para três perigos que corremos quando somos idólatras: (1.) Fazer Deus à nossa imagem e semelhança (talvez não na forma, já que herdamos a Européia e, em alguns casos, um rearranjo norte-americano). Nesse caso, Deus então gostaria do que nós gostamos, aprovaria o que nós aprovamos e sentiria repulsa pelo que nós sentimos; (2.) Tornar Deus incompreensível. Muitas vezes a imagem que as pessoas têm de Deus é a imagem dos seres humanos (incoerentes, ilógicos, perseguidores, intolerantes, preguiçosos, gananciosos, falsos, desleais, etc.); (3.) Inverter os papéis, tornando Deus nosso servo e fazendo-o se comprometer com nossa agenda. Foi assim que se justificou a Inquisição, as Cruzadas, a Escravatura e é assim que se justificam os embates religiosos em nosso meio (internamente) e em nossos relacionamentos na sociedade.



[1] O autor é pastor Batista, professor da Faculdade Teológica Batista do Paraná e das Faculdades OPET, ambas em Curitiba. Doutor em Ciências da Religião, pesquisador do NUPPER – Núcleo Paranaense de Estudos e Pesquisas em Religião.

[2] Na NTLH a expressão preferida é deuses.

[3] Em virtude da falta das fonts que poderiam reproduzir os caracteres gregos e hebraicos ao longo do texto, optamos por uma transliteração mais simples.

[4] TDNT corresponde a obra de Gerhard Kittel, Theological Dictionary of the New Testament. Strong, J., & Sociedade Bíblica do Brasil. (2002; 2005). Léxico Hebraico, Aramaico e Grego de Strong (H8679). Sociedade Bíblica do Brasil.

Da esquerda para direita, os pastores Marcos Stier Calixto, Jaziel Guerreiro Martins, Uipirangi Câmara e Eduardo Getão
Da esquerda para direita, os pastores Marcos Stier Calixto, Jaziel Guerreiro Martins, Uipirangi Câmara e Eduardo Getão
Cuidado com o andor porque o santo é de barro (Ou, cuidado com o ardor, porque o Deus é fabricado)

Uipirangi Câmara[1]

Meus filhinhos, cuidado com os falsos ídolos[2]! I João 5.21

            O presente texto é incluído geralmente na categoria de carta, embora lhe faltem elementos constitutivos para tal (saudação, destinatário,etc). Fato esse que, segundo alguns estudiosos, faz com que o texto se assemelhe mais a um sermão. O autor não diz seu nome, no entanto menciona detalhes como por exemplo, o fato de ter convivido com Jesus (ter tocado nele). Provavelmente esse tenha sido um dos motivos para ser associado ao apóstolo João. Há algumas discussões a respeito da data e local de onde foi escrito, parecendo haver uma certa tendência em colocar pelo fim do primeiro século, tendo como Éfeso a principal referência de localidade. Possivelmente o autor tem em mente algumas questões doutrinárias preeminentes, como por exemplo a natureza de Cristo. No entanto, quero destacar o que me parece uma dupla ênfase “a necessidade de que haja amor de fato” e de que se viva a vida cristã com Deus e não com os ídolos( incluindo-se as operações do erro). É exatamente na possibilidade de que os erros possam ser equívoco na programação interna, em vez de uma investida externa, que quero focar essa pequena reflexão. Principalmente a partir da exortação do autor aos seus leitores, de que tenham cuidado com os falsos deuses.

Quero destacar, para fins de compreensão do objetivo geral dessa reflexão, algumas expressões. A primeira delas é:

            1) heautou[3] [incluindo todos os outros casos TDNT] de um pronome reflexivo que caiu em desuso e o caso genitivo (caso dativo ou acusativo) de autos  pronome (ele mesmo, ela mesma, a si mesmo, eles ou elas mesmos, a si próprios)[5].

            2) phulasso  verbo, cujo sentido varia entre: guardar, vigiar, manter vigília, guardar ou vigiar, manter o olhar sobre: para que não escape , guardar uma pessoa (ou coisa) para que permaneça segura,  para que não sofra violência, ser despojado, etc.; proteger, proteger alguém de uma pessoa ou coisa,  guardar de ser raptado, preservar seguro e sem distúrbio,guardar de ser perdido ou de perecer, guardar a si mesmo de algo, guardar, i.e., importar-se com, tomar cuidado para não violar, observar, cuidar para não escapar, prevenir, evitar a fuga de, guardar para si (i.e., por segurança) de modo a não violar, i.e., guardar, observar (os preceitos da lei mosaica)

3) eidolon. Cujo significado pode variar entre: uma imagem (i.e. para adoração);  imagem, réplica; i.e. qualquer coisa que representa a forma de um objeto, seja real ou imaginária; usado dos espíritos dos mortos, aparições, fantasmas, espectros da mente, etc; imagem de um deus pagão; deus falso; aparência externa ou exterior, forma; derivados de eido ou oidai verbo: ver, perceber com os olhos, perceber por algum dos sentidos, perceber, notar, discernir, descobrir, ver, voltar os olhos, a mente, a atenção a algo, prestar atenção, observar, tratar algo, determinar o que deve ser feito a respeito de, inspecionar, examinar, olhar para, ver,  experimentar algum estado ou condição, ter uma entrevista com, visitar,  conhecer, saber a respeito de tudo,  adquirir conhecimento de, entender, perceber, a respeito de qualquer fato, a força e significado de algo que tem sentido definido, saber como, ter a habilidade de, ter consideração por alguém, estimar, prestar atenção a. No AT, a expressão ídolos é também comumente referente à eexpressão elowahh, Deus,  deus falso, embora a Septuaginta tenha empregado na maioria das passagens o termo grego eidolon.

Normalmente nos sentimos liberados quanto ao mandamento de manter-nos livres da idolatria, pois, fomos condicionados a pensar em ídolos apenas como figuras (imagens) de deuses (santos) em forma de pedra, madeira, etc. Nesse caso, por ausência de figuras desse tipo em nosso meio, pensamos: idólatras, são os outros. Grande equívoco. Ao se criar uma figura (imagem, imaginação, idéia) empresta-se a ela não apenas uma determinada forma, mas também características. Por ser objeto de fabricação é sempre menor de quem a fabricou. Nesse caso, quando se tenta fazer uma figura de “Deus” cai-se num reducionismo, o que logicamente, no caso de “Deus”, faz com que Ele seja privado de suas características próprias, tornando-o uma caricatura, um falso deus. No AT, por exemplo, quando da retórica de alguns profetas na referência ao ídolo quanto à sua constituição a alusão não é à imagem (a figura), mas, a sua inoperância (não ouvir, não andar, etc.), à sua caricatura.

Será então que idólatras realmente são os outros? Vejamos. Não vamos muito longe. Imagens não são feitas apenas de gesso, barro ou madeira. São feitas também de desenhos e de palavras. É possível, portanto, que numa determinada linguagem encontremos todos os constitutivos de uma imagem em barro, madeira ou gesso. Por exemplo, quando cantamos: “Quero ouvir tua voz, tocar em ti, ver tua face, ouvir teu coração, me deter em teus braços” o que fizemos? Uma imagem. Emprestamos todas as características humanas conhecidas para quem não se deixou aprisionar por nenhuma delas. Quando fazemos nossos sermões, ou nossos compêndios doutrinários e dizemos que Deus faz isso ou aquilo, age dessa ou dessa maneira e engessamos esse “dito, ensino”, fabricamos também, dessa forma uma imagem. Pensando ser a voz de Deus, poderemos ao contrário, sermos a única voz presente.

Por isso, o trocadilho temático para essa reflexão: Cuidado com o clamor, porque o Deus é fabricado!

Diante da advertência feita pelo autor de I João, gostaría de propor, nessa reflexão, um olhar para três perigos que corremos quando somos idólatras: (1.) Fazer Deus à nossa imagem e semelhança (talvez não na forma, já que herdamos a Européia e, em alguns casos, um rearranjo norte-americano). Nesse caso, Deus então gostaria do que nós gostamos, aprovaria o que nós aprovamos e sentiria repulsa pelo que nós sentimos; (2.) Tornar Deus incompreensível. Muitas vezes a imagem que as pessoas têm de Deus é a imagem dos seres humanos (incoerentes, ilógicos, perseguidores, intolerantes, preguiçosos, gananciosos, falsos, desleais, etc.); (3.) Inverter os papéis, tornando Deus nosso servo e fazendo-o se comprometer com nossa agenda. Foi assim que se justificou a Inquisição, as Cruzadas, a Escravatura e é assim que se justificam os embates religiosos em nosso meio (internamente) e em nossos relacionamentos na sociedade.



[1] O autor é pastor Batista, professor da Faculdade Teológica Batista do Paraná e das Faculdades OPET, ambas em Curitiba. Doutor em Ciências da Religião, pesquisador do NUPPER – Núcleo Paranaense de Estudos e Pesquisas em Religião.

[2] Na NTLH a expressão preferida é deuses.

[3] Em virtude da falta das fonts que poderiam reproduzir os caracteres gregos e hebraicos ao longo do texto, optamos por uma transliteração mais simples.

[4] TDNT corresponde a obra de Gerhard Kittel, Theological Dictionary of the New Testament. Strong, J., & Sociedade Bíblica do Brasil. (2002; 2005). Léxico Hebraico, Aramaico e Grego de Strong (H8679). Sociedade Bíblica do Brasil.

"Junto aos rios de Babilônia, ali nos assentamos e nos pusemos a chorar, recordando-nos de Sião." Salmos 137.


"Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá, as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá, nosso céu tem mais estrelas, nossas várzeas têm mais flores, nossos bosques têm mais vida, nossa vida mais amores. Em cismar, sozinho à noite, mais prazer encontro eu lá; minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá. Minha terra tem primores, que tais não encontro eu cá; em cismar - sozinho, à noite - mais prazer encontro eu lá, minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá. Não permita Deus que eu morra, sem que eu volte para lá; sem que desfrute os primores que eu não encontro por cá, Sem qu'inda aviste as palmeiras, onde canta o sabiá."

                                                          (Gonçalves Dias, CANÇÃO DO EXÍLIO)

 

        Não estamos perdidos, nos foi tirada a pátria. Terrivelmente arrancada de nós sob a pecha de anquilosados, tradicionais, frios, descontextualizados, encardidos. Não há como não fechar os olhos, os lábios, o coração, a alma. Um subjetivismo irracional, por ser sensitivo (não sem lógica), domina "Sião". Nossos filhos, esposas, netos, nos olham e escutam em nós a dor profunda que expressamos sem dizer uma só palavra. Já não são só vendedores em "Sião"...bezerros de ouro, mágicos, Pilatos, Herodes, latoeiros... Mene, Mene, Tequel e Parsim...

         Talvez tenhamos que enfrentar esse novo tempo, esse tal pós-modernismo, talvez seja inevitável... O problema é que vamos ter de enfrentá-lo algemados, fora da pátria, longe da terra. Dói profundamente não apenas o fato das algemas, a ração contida, o frio na alma. A dor maior é ver que nossos algozes não falam sibolete.

         Temos que atravessar o deserto sem Moisés, o rio sem a cestinha de junco...Temos que empurrar a pedra sem ajuda, atingir o gigante sem a funda, pegar os peixes sem as redes...

      A esperança, essa tal de esperança que teima em aparecer sorrindo nos lembra do Pastor que nunca nos abandonou, nos lembra dos outros tantos que não se dobraram a baal (signifique isso o que queira significar), nos lembra dos braços do mestre, nos lembra da corsa que inspira o poeta a suspirar por Deus.

       Me uno, não por vontade própria, mas pela vizinhança de algemas, ao côro que nunca se cala, ao choro que sempre se silencia, a voz que suplica sem palavras de todos os meus irmãos...

                                                                         Uipirangi

Por InfoBatista, en: General