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Publicado el November 21st, 2008, 11:18

“Porém nós (mulheres) que estamos rodeadas de uma tão grande nuvem de testemunhas, desembaraçando-nos... corramos... a carreira que nos está proposta” (Hb 12.1).

Enquanto estava ouvindo as respostas da Rachel de Oliveira Ayres aos examinadores do seu concílio, no sábado dia 13 de setembro, muitos pensamentos passavam pela minha mente.  Naquele momento, algo tão simples e grandioso, ao mesmo tempo, acontecia.

Um grupo de pastores, nove, mais duas pastoras, eu e a Maria Elena, participávamos do concílio de uma pastora!  O ambiente, os pastores, a igreja, as pessoas que preparavam o almoço ou acompanhavam o concílio, pareciam algo tão simples que em nada mostravam a singularidade daquele momento. Aquele concílio era o símbolo de muitas barreiras que estão sendo rompidas pelas mulheres chamadas por Deus.

A primeira delas é a barreira interna, pessoal de cada uma. Não é fácil para uma mulher, com vivência em igrejas, cujas lideranças são absolutamente masculinas, romper os modelos e aceitar para si mesmas a vocação pastoral. Enquanto a Rachel falava das muitas provas que havia pedido a Deus para ter certeza que ele a chamava, refletia que tanto para ela, quanto para nós, é preciso que Deus fale, fale de novo, volte a falar, fale novamente para que aceitemos a vocação. Acredito que a maioria de nós é vencida por esse amor de Deus que não desiste de nós.

Outra é a barreira é a que a própria igreja precisa vencer. Como uma igreja, seja de poucos ou muitos anos de organizada, vence todo um contexto social, pressões, teologia machista e aceita ordenar uma pastora? No que tenho observado, esse fato acontece como resultado de anos de trabalho de uma mulher vocacionada. Depois que ela prova que é chamada, que sabe trabalhar, que Deus usa a sua vida, então a igreja é “vencida” em suas resistências.

O pastor ou pastores, participantes desse processo, também precisam vencer barreiras. Aquelas de suas crenças habituais, confortáveis, como também as das instituições a que estão de alguma forma ligados. É preciso muita humildade e justiça para reconsiderar seus valores e conduzir uma mulher em um processo de reconhecimento de sua vocação pastoral.

Romper barreiras com as próprias mulheres, muitas vezes, também tem sido necessário, e talvez este seja um dos obstáculos mais doloridos de enfrentar. Porque vem de alguém igual, do mesmo gênero, e por isso mesmo mais difícil de vencer. Mulheres que incorporaram os valores masculinos, esquecendo de si mesmas e que têm dificuldade de aceitar outra maneira de ser mulher, respaldada pela Palavra. Mas, contraditoriamente, passada a surpresa, há uma alegria de cumplicidade e valor partilhado, que dá sustentação ao ministério.

Barreiras também precisam ser vencidas para se dar visibilidade a uma pastora. O convite para um concílio, para uma ordenação, sua presença em reunião de pastores ou assembléias de vários níveis denominacionais, muitas vezes causam resistência, jocosidades e desprezo mesmo. Mas é preciso, é necessário, para que as pessoas vejam que as pastoras existem, que já é uma realidade impossível de ignorar.

Também pensei nas barreiras vencidas pelas mulheres que nos antecederam, mulheres que no decorrer da história tiveram a ousadia, a coragem de romper com tradições escravizantes, cerceadoras, e se dispuseram a sair do comodismo e não somente lutar para exercer suas vocações e profissões, como também desbravar o caminho para outras mulheres. Mulheres que lutaram, muitas vezes anonimamente; mulheres que em lugares estratégicos têm dignificado o papel da mulher no ministério, ainda que sem título de pastoras, mas que, mesmo assim, mostram o valor e a capacidade dados por Deus à mulher. Mulheres que saíram do nosso convívio denominacional, porque o compromisso com Deus era maior do que com os homens, e hoje exercem o ministério pastoral em outros lugares do Reino.

Somos herdeiras de um legado sem preço na história.

Mas de todas as barreiras, a mais importante foi vencida por Jesus, a quem servimos. Ele falava com as mulheres, discutia teologia, curava-as no sábado sagrado, comissionava-as e as deixava participar do seu ministério. Esse Salvador maravilhoso, que tratava as mulheres com igualdade, que foi capaz de atender o chamado de duas irmãs, Marta e Maria; que atravessou o seu país porque uma mulher estrangeira precisava de libertação para a sua filha; que não teve constrangimento em se deixar ser tocado ou tocar mulheres e curá-las. Esse Jesus poderoso que deu a vida por todos nós, homens e mulheres, e nos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz, fazendo-nos transpor a maior de todas as barreiras.

Ainda temos muitos obstáculos a serem rompidos, mas participamos dessa corrida de fé. O bastão está conosco. Que o Senhor nos ajude a cumprir nossa carreira com ousadia e coragem, deixando um caminho digno a ser percorrido por aquelas que virão depois de nós.

Pra. Zenilda Reggiani Cintra

Pastora da Base Crescer da IBAC – Igreja Batista Curuçá, Santo André-SP (CBB).

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