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Publicado el November 22nd, 2008, 18:10

Tapas ortodoxos

            O cristianismo é uma das religiões do livro. Isso tem lá as suas conseqüências.
            Todos os ramos desse cristianismo reivindicam a ortodoxia, ao passo que tacha todos os outros de heterodoxos, hereges.

            Todos reivindicam ter uma hermenêutica correta; ao passo que os outros, uma interpretação especiosa.
            Essa posse reivindicatória da verdade causa, não raro, divisões, cismas e... guerras entre os próprios cristãos.

            Enquanto eu escrevo, posso falar da última. Posso apostar que quando lerem, já não será a última. Mas a "última" foi o "quebra-pau" entre os ortodoxos na igreja do santo sepulcro. Religiosos - monges - gregos e armênios protagonizaram uma cena de pancadaria dentro da igreja do santo sepulcro. Monges, religiosos, simpatizantes, soldados... todos bateram. Todos apanharam. Segundo a reportagem do Fantástico deste domingo, 09/11, não foi a primeira vez que isso aconteceu entre eles.
            Certamente, essa não foi a primeira vez entre eles, nem uma das primeiras entre os cristãos. Protestantes e católicos não se cruzam na Irlanda. Católicos e protestantes nutrem um ódio que eles mesmos não sabem a origem, mas nutrem e alimentam a disputa. De alguma forma, herdamos a tendência da mútua demonização do outro a partir do movimento do denominacionalismo norte-americano.
            A manipulação do livro, ter a hermenêutica correta, ser, dentre as centenas de correntes cristãs a única certa, só pode dar nisso: incompreensões, pancadaria, divisão, ódio mútuo, falta de cooperação, vergonha dos cristãos sobre os próprios cristãos. Brigar - no sentido literal da palavra - é ser coerente enquanto cristão. O que se poderia esperar de grupos que detêm a verdade, e, essa verdade só está de um lado? Matar, eliminar, bater no outro, impor essa verdade a todo custo, a todo mundo.
            Em nome de uma verdade que não admite o erro, elimina-se o amor, que cobre uma multidão de pecados.

            A ortodoxia passa a ser maior que a paz.

            Questões periféricas são deslocadas para o centro, ao passo que, as centrais, são esquecidas, deixadas de lado.

            Não fazer assim é também ser herético, a palavra "adorada" pelos autodenominados "ortodoxos". A palavra heresia é tão simbólica entre os cristãos, que, entre aqueles que são historicamente ortodoxos (gregos, armênios, russos, etíopes...) chamam-se uns aos outros de heréticos. Nós também os denominamos assim.

João Pedro

Por InfoBatista, en: General