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Publicado el November 22nd, 2008, 18:33

E a bíblia tinha razão
Armadilhas hermenêuticas

Há uma necessidade urgente e gritante de conhecimento mais aprofundado
sobre a interpretação da Bíblia

Amaioria dos mais informados vai concordar que atravessamos um cenário
complicado no evangelicalismo brasileiro. Todos sabem que a Igreja
cresceu demais nas últimas décadas, mas ela ainda busca
amadurecimento. Movimentos mais contextualizados e grupos voltados
para a evangelização do país coloriram o cenário nos últimos anos.
Todavia, tanta euforia e eferverscência também é sinal de atenção. O
fato é que a Igreja nacional precisa achar um ponto de equilíbrio
entre quantidade e qualidade. E sem o estudo sério e fundamentado da
Palavra de Deus, teremos problemas insolúveis a curto prazo em nossa
realidade protestante tupiniquim. Infelizmente, ainda há grupos em
nosso contexto de fé que desprezam o preparo teológico; outros são tão
estranhos que vivem na fronteira entre as categorias de seita e
denominação.

Ninguém pode negar que essa tarefa de consolidação da Igreja
brasileira passa necessariamente pela referência máxima da cristandade
e dos evangélicos: as Escrituras Sagradas. A compreensão da Bíblia é
absolutamente fundamental para que se tenha uma Igreja séria e
cristãos espiritualmente saudáveis. Por incrível que pareça, o sinal
de que nem tudo vai bem neste cristianismo "tropical, abençoado por
Deus e bonito por natureza" é que há muitos textos lidos e enfatizados
em nossa tradição evangélica que são mal compreendidos, gerando
inclusive crises e problemas pessoais em muitos cristãos sérios e
sinceros.

Muita gente tem sofrido com seus familiares ao ler o conhecidíssimo
texto de Atos 16.31: "Crê no Senhor Jesus, e tu e tua casa sereis
salvos" (Versão Almeida 21). O problema desse texto é que muitas
pessoas pensam que estamos diante de uma promessa divina de que todos
os nossos parentes próximos serão salvos mediante a nossa fé. A
verdade é que tal trecho não ensina isso! Em primeiro lugar, é
importante destacar que, como texto narrativo histórico, o versículo
não pretende ser normativo – ou seja, o relato de alguma coisa que
acontece não é necessariamente norma para toda a Igreja. Logo, aqui
vemos uma promessa que foi dada ao carcereiro de Filipos, e não a
todos! Foi dito que ele e "os de sua casa" (NVI) seriam salvos. No
caso específico, isso talvez tivesse incluído servos ou empregados, já
que a "casa" de alguém nos tempos bíblicos incluía gente que não era
da família de sangue do proprietário.

A verdade é que ninguém pode assegurar a conversão de seus parentes
com base neste texto. Se esse fosse o caso, nenhum crente veria um
parente próximo morrer sem converter-se a Jesus – mas sabemos que isso
não se verifica. Além disso, o próprio Senhor deixou claro que muitos
cristãos até perderiam suas famílias por causa do Evangelho: "E todo o
que tiver deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou
mulher, ou filhos, ou campos, por minha causa, receberá cem vezes mais
e herdará a vida eterna." (Mt 19.29 – A21). Se aos crentes fosse
prometida a conversão de todos os parentes próximos, o texto de Mateus
10.35, 36 também não faria sentido.

Quase que na mesma linha de pensamento, muitos evangélicos,
principalmente pais e mães, ficam literalmente desesperados diante de
Provérbios 22.6: "Instrui ao menino no caminho em que deve andar, e
até quando envelhecer não se desviará dele" (Almeida Revista e
Corrigida). O que geralmente se entende desse versículo é que Deus
promete que uma criança levada ao conhecimento do Evangelho desde
pequena nunca se desviará da fé. E como ficam os pais de filhos que
fizeram justamente o contrário, embora educados segundo a Palavra,
apostataram da fé? Em primeiro lugar, é importante lembrar que
Provérbios não é um livro de promessas – suas afirmações são
"máximas", ou seja, fatos constatáveis de modo geral na vida. O que o
texto diz é que aquilo que uma criança aprende desde pequena não é
esquecido, mas a tônica não é exclusivamente religiosa. É de criança,
por exemplo, que se aprende a andar de bicicleta, falar outra língua,
tocar um instrumento ou mesmo decorar versículos.

A tradução tradicional "deve andar" interpreta o sufixo pronominal
genitivo do hebraico indo muito além do literal. Todavia, há outras
alternativas de interpretação. "Instruir a criança no caminho" pode
significar instruí-la segundo os objetivos que os pais têm para ela"
(NVI), instruí-la no caminho devido (ARC, A21) ou mesmo "instruí-la
conforme os dons que ela tem". As interpretações são legítimas e o
texto está aberto a mais de um enfoque distinto. No entanto, é
bastante seguro afirmar não há promessa ou segurança alguma de
salvação para a criança que vai à Escola Dominical, tem pais cristãos
e ouve a Bíblia desde pequena, simplesmente porque não é isso o que se
trata ali.

Outro texto geralmente mal compreendido é o de Filipenses 4.13 – "Tudo
posso naquele que me fortalece". Certa vez, trafegando pelas áreas
nobres da rica cidade de São Paulo, vi um belo carro importado com um
adesivo que ostentava orgulhosamente tal verso. Geralmente, quando se
lê este texto isoladamente, a maioria das pessoas imagina que se trata
de uma promessa de fé: a de que, por meio do poder de Cristo, podemos
alcançar tudo que quisermos! Assim, posso adquirir bens caros,
derrotar inimigos, alcançar posições de destaque e tudo o mais.
Novamente, o texto bíblico não está dizendo isso. Aqui, é preciso
entender o contexto. O apóstolo Paulo está escrevendo aos filipenses
na ocasião de sua prisão, muito provavelmente em Roma. Portanto, está
enfatizando que, por meio de Cristo, podemos suportar toda e qualquer
situação adversa. Basta ler o que o apóstolo diz um pouco antes, nos
versículos 11 e 12: "Não estou dizendo isso porque esteja necessitado,
pois aprendi a adaptar-me a toda e qualquer circunstância. Sei o que é
passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de
viver contente em toda e qualquer situação – seja bem alimentado, seja
com fome, tendo muito ou passando necessidade" (NVI). Por incrível que
possa parecer, o texto bíblico significa exatamente o oposto do que
muita gente tem sugerido sem analisá-lo adequadamente.

Já encontrei até dois cristãos evangélicos discutindo se devemos ou
não mentir em certas situações. Independentemente da discussão sobre a
possível legitimidade de uma inverdade ou omissão da verdade em certas
situações – como o caso de mentir ou omitir algo para salvar uma vida
–, o que estamos discutindo é o uso de textos bíblicos de maneira
indevida. O argumento dos debatentes era o de que Abraão, servo do
Senhor e chamado na Bíblia de "amigo de Deus", mentiu em uma situação
de necessidade, registrada em Gênesis 12.18-20. A questão aqui não é
tão difícil – novamente, cabe frisar que o simples relato de um texto
histórico não o define como norma. Muitas passagens das Escrituras nos
contam erros e crimes de seus personagens exatamente para enaltecer o
poder de Deus na vida de frágeis seres humanos. Muita gente, porém,
tenta ver méritos e qualidades especiais em cada detalhe de vida dos
heróis bíblicos sem contrastar o comportamento dos mesmos com as
normas divinas. Assim, com base nos fatos de que Moisés ficou irado,
Jacó enganou Labão, Raabe mentiu em Jericó ou que Davi foi polígamo,
há quem tente justificar seus pecados, afirmando que homens e mulheres
de Deus do passado fizeram tais coisas e não foram punidos por isso. O
equívoco é muito claro.

Tais situações apenas nos mostram a necessidade urgente e gritante de
um conhecimento mais aprofundado da hermenêutica, a arte de
interpretação da Bíblia. Muitas comunidades cristãs são hoje reféns de
doenças hermenêuticas prejudiciais e destruidoras para a fé de seus
integrantes. Há grupos perdendo o equilíbrio e caindo no liberalismo
teológico da negação do sobrenatural, ou numa filosofia específica. Há
tantas distorções – o legalismo, o misticismo desenfreado, o
tradicionalismo irrefletido – que somente o estudo da Bíblia no seu
próprio contexto, entendendo elementos históricos, literários e
teológicos, nos levará a entender ao máximo a intenção original do
autor. É preciso ainda destacar os princípios presentes no texto para
então comparar o que descobrimos com uma análise teológica mais
profunda, a partir de outras passagens que falam dos mesmos
princípios. Finalmente, devemos fazer a aplicação do princípio
descoberto e teologicamente analisado na realidade do cotidiano.

A verdade é que a seriedade e o valor do texto sagrado para sempre
ecoará através da história, especialmente quando ouvimos como o
próprio Jesus considerava as Escrituras: "Pois em verdade vos digo:
antes que o céu e a terra passem, de modo nenhum passará uma só letra
ou um só traço da Lei, até que tudo se cumpra" (Mateus 5.18 – A21).

Luiz Sayão
Teólogo, hebraísta, escritos e tradutor da Bíblia. É também professor
da Faculdade Batista de São Paulo, do Seminário Servo de Cristo e
professor visitante do Gordon-Conwell Seminary.

Fonte: Eclésia

Por InfoBatista, en: General