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Publicado el November 22nd, 2008, 15:12

Luiz Sayão - Esparadrapo usado  

Uma das experiências mais irritantes que um mero mortal pode enfrentar
nos seus poucos dias de vida na terra é tentar colar um esparadrapo
usado. Aquela fita desprezível parece que cola, mas depois solta um
pedaço aqui, gruda uma parte ali, o dedo fica lambuzado, o esparadrapo
cai no carpete. É horrível! Diante de uma experiência terrível como
essa, o descrente solta um palavrão, o evangélico histórico pede
misericórdia, e o neopentecostal já repreende o mal! Mas e daí?
Afinal, o que isso tem a ver com a nossa realidade bíblica e
evangélica?

Por incrível que pareça, a verdade é que vivemos num mundo marcado
pela "síndrome do esparadrapo usado". Numa realidade social movida
pelo deus-dinheiro, as relações humanas tornam-se prejudicadas e
simplesmente descartáveis. O caos hodierno percebe-se na família:
abortos são comuns, filhos são rejeitados, abandonados e até vendidos,
pais e mães entregam filhas para a prostituição, os divórcios se
multiplicam, muitos casamentos vivem "de aparência", a
homossexualidade é enaltecida e o isolamento do indivíduo torna-se
paradigmático. A adesão familiar fragiliza-se sensivelmente. A boa e
antiga ligação afetiva entre familiares é cada vez mais limitada e
destruída.

Esse triste ambiente geral sugere forte conexão com "os últimos dias"
descritos em 2 Timóteo 3.3,4, onde os homens são descritos como
"desobedientes aos pais e sem amor pela família" (NVI). Veja também
Romanos 1.30. Em Mateus 10.21, o texto fala da perseguição aos
cristãos vinda dos próprios familiares que serão capazes de matar
irmãos, filhos e pais. Estaremos caminhando nessa direção? Estamos
experimentando a individualização extremada do ser humano, a
fragmentação e a atomização da sociedade. O nosso terrível humanismo
está desumanizando o mundo?

Certamente, a maioria dos evangélicos, católicos e religiosos diria
que este é o retrato de um mundo sem Deus, sem ética e princípios. Mas
como esta "síndrome do esparadrapo usado", onde nada mais tem adesão,
tem funcionado na vida das igrejas? O que está acontecendo em nossos
arraiais e nos demais contextos religiosos?

Há um novo perfil religioso, principalmente evangélico, no ar. Há uma
tendência de desvinculamento generalizado, uma espécie de "esparadrapo
usado". Muitos cristãos já preferem não ter compromisso com nada. Há
pouco compromisso doutrinário e ideológico. Até mesmo muitos líderes e
pastores afirmam que "doutrina e teologia" não são sua área. Não
possuem aderência nenhuma a nada. É surpreendente.

No mesmo caminho, grande parte dos chamados cristãos não entendem o
que quer dizer igreja. Desconhecem a advertência de Hebreus 10.25:
"Não deixemos de nos reunir como igreja..." Não sabem que não é
possível ser cristão sem igreja. Quem não está no corpo não pode estar
ligado à cabeça (Cl 2.19). Não se lembram de que a oração de Jesus é o
"Pai Nosso" e não o "Pai Meu". É preciso conviver com os irmãos!

Assim, nessa nova onda do "esparadrapo usado", muitos vivem como
"andarilhos da fé". Não se submetem à autoridade de ninguém, vivem
impulsionados por novas ondas, são os crentes "coca-cola" (só o gás!);
andam de um lado para outro. Muitos são cristãos televisivos ou
digitais: consomem mensagens cristãs pela internet e pela TV apenas e
mais nada. Alguns são mais "rotativos": buscam ensino numa igreja
batista ou presbiteriana, vão numa "reunião de fogo" de uma igreja
pentecostal e procuram o "louvor ungido" de uma comunidade. Mas eles
mesmos não têm convicção, não têm compromisso, não têm posição
doutrinária, não prestam contas de sua vida a ninguém. Vivem
aleatoriamente. É a doença da atomização pós-moderna, o
desvinculamento doentio que também aflige a própria igreja.

Como consumistas inveterados, em busca de prazeres epidérmicos e
hipersensorializados, tais vítimas do sistema fogem de conflitos,
acomodam-se em sua zona de conforto e buscam apenas uma experiência
social mais agradável. Arrependimento, comunhão, perdão, levar a cruz,
submissão, sofrimento pela fé, perseguição, são palavras preciosas da
história da fé cristã que têm desaparecido do novo cenário! Será que
isso tem reversão?

Essa síndrome assustadora transborda os limites evangélicos. Faz parte
de um mundo nominal de católicos, judeus, muçulmanos, budistas,
espíritas etc. O nominalismo inócuo não é monopólio evangélico. Fora
dos limites do mundo religioso, a realidade não é nada diferente. Hoje
há um desinteresse por carreiras nobres e tradicionais em termos
profissionais (os EUA não têm enfermeiros, o Brasil não tem cientistas
e engenheiros suficientemente), há uma ausência de patriotismo e
sentimento nacional, e uma fragilização geral dos vínculos
historicamente importantes para a caminhada da civilização. Nesse
vazio do "pertencer", nessa lacuna de identidade social, multiplica-se
o desespero da busca de um relacionamento minimamente humano e
transcendente. Esta é a razão porque a prostituição virou uma praga e
o sexo casual virou palavra de ordem. As cervejarias e os vendedores
de bebidas não param de comemorar suas vendas. A alienação por meio
das drogas lícitas e ilícitas toma conta da sociedade. Onde viemos
parar?

Como agir diante disso? Em primeiro lugar é preciso dar uma parada.
Vamos pensar e refletir profundamente sobre o que estamos vendo. Em
segundo lugar, precisamos desesperadamente de investimento em família.
Chega de ativismo religioso em detrimento do cuidado familiar. Quem
não cuida da família nega a fé e é pior do que o descrente (1 Tm 5.8).
Em terceiro lugar, devemos falar e pregar abertamente contra essa
atitude equivocada de muitos "andarilhos da fé". Pessoas sem
compromisso não podem ministrar na igreja, como se nada estivesse
acontecendo.

Finalmente, contra essa atitude indevida, devemos praticar e valorizar
reuniões de pequenos grupos para enfatizar e valorizar o
relacionamento pessoal e o mútuo compromisso de comunhão em Cristo.
Afinal de contas, se avaliarmos com bom senso e à luz das Escrituras
Sagradas esse tipo de comportamento – a sociedade perdeu o rumo por
ter rompido com os paradigmas bíblicos –, vamos descobrir a grande
verdade: esta "síndrome do esparadrapo usado" simplesmente não cola!

Fonte: http://www.revistaenfoque.com.br/index.php?edicao=82&materia=1066

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