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Publicado el November 22nd, 2008, 15:22

O Senhor Fala

Jonas 1.1-2

O livro de Jonas é muito actual. Contudo, é um livro desconhecido pela maioria. Todos sabem que ele foi engolido por um grande peixe. O chamam de profeta fujam, mas poucos se aprofundam no estudo do livro. Jonas é apaixonante. Ele é "o mais interessante de todos os profetas da Bíblia. Isto porque Jonas é seguramente o mais parcial, extravagante e humano de todos eles."[1]

Estudar o livro de Jonas é reflectir sobre a graça de Deus. É reflectir sobre a vida da igreja e ver que muitas vezes, ela age como agiu o povo de Deus no passado e o seu profeta. Fecham-se para o mundo e vivem enclausurados para si mesmo e por isso deixam de ser bênção para os demais.

Não esqueçamos nunca que os "profetas estão solidamente enraizados na situação político-social, tanto de Israel como das nações vizinhas."[2] Por causa disto, o profeta vive todas as questões políticas dos seus dias. Ele tem suas preferências. Suas preferências fazem-no esquecer que o povo de Israel deveria ser bênção para todos os povos.

Israel deveria ser bênção para todas as nações (Gn 12.1-3). Portanto, podemos dizer que o livro de Jonas, "gira em torno da extensão da graça de Deus aos gentios. É mais uma aplicação de Gênesis 12:3. Boa parte daquilo que ensina se centraliza no caráter de Deus conforme a revelação do mesmo já feita em Êxodo 34:6."[3] Quando paramos e reflectimos sobre isto podemos ver que é possível ter uma ortodoxia correcta e viver distante dela. É por este motivo que Von Rad diz: "A verdadeira falta de Jonas consiste em que, apesar de sua ortodoxia, se mantém separado. Isto aconteceu tanto no barco como em Nínive: quando a vida e a morte estavam em jogo, colocou-se à margem, num lugar extremamente inconfortável."[4]

A igreja necessita parar e rever à sua atitude. Deve deixar seu complexo de inferioridade e assumir uma postura séria diante do mundo. É o momento de olhar para fora e ver que nosso chamado é para ser luz para as nações (1 Pe 2.9). Somos o povo que foi resgatado para glorificar a Deus. Contudo, enquanto aqui vivermos, nossa adoração nos direcciona ao nosso próximo. Quando olhamos para o livro de Jonas, vemos que nossa visão deve ser alargada. Precisamos compreender que o nosso chamado é para sermos bênção para todos os povos.

Antes de continuarmos, vejamos qual era o contexto de Jonas.

Jonas é filho de Amitai (amizade), profetizou na época de Jeroboão II de Israel, portanto viveu aproximadamente no ano de 750 a .C. Ele é citado em 2 Reis 14.25. Ele profetizou para o reino do norte de Israel. Aquele era um tempo muito difícil. O regime de Jeroboão II era terrível. Ele era um rei perverso que fez o que era mal aos olhos do Senhor (2 Rs 14.24). Apesar disto, Jonas profetiza que o Senhor iria restaurar as antigas fronteiras, o que aconteceu (2 Rs 14.25-28).

Aquele era um tempo de ameaças. Israel corria o risco de ser extinto como nação (2 Rs 14.27). A pobreza imperava na nação (2 Rs 14.26), praticamente não havia hierarquia social. Apenas uma pequena minoria era rica (2 Rs 15.20). Apesar disto, o governo investia fortemente em armamentos e por isso expandia seu militarmente. Foi um tempo de restabelecimento e conquista (2 Rs 14.25;28). Neste ambiente de guerra, Jonas partidarizou-se com o seu país e passou a odiar os seus adversários e o maior destes era a Assíria, que tinha Nínive como capital.

Já vimos o contexto de Jonas. Agora vejamos um esboço do livro para que possamos compreender o plano do autor e também ter uma compreensão global da obra.

O esboço que utilizaremos é simples, mas nos aponta bem o conteúdo da obra. Vejamos o que temos:

Comissionamento e Fuga – Capítulo 1

Redescobrindo a oração – Capítulo 2

Obediência e Salvação – Capítulo 3

Aprendendo sobre o amor do Senhor – Capítulo 4

Tendo isto em mente, vejamos as implicações do livro de Jonas para as nossas vidas. Vejamos o que ele nos ensina.

1 – O Senhor sempre toma a iniciativa de falar ao seu povo 1

Aqui é que começa a história. O texto inicia com Deus falando. É assim que deve ser. O povo de Israel deve viver a ouvir a palavra do Senhor e deve viver sob a autoridade da Palavra. Este foi o problema do povo de Israel. Deixou de viver sob a orientação da Palavra. Agora a Palavra vai deixar Israel. Jonas é enviado para pregar aos pagãos. Ele é enviado para ser bênção aos que não fazem parte do povo de Deus.

Ele, que profetizava a expansão territorial. Agora é chamado para pregar aos que ele ideologicamente considera inimigo. Ele é comissionado pelo Senhor para manifestar a graça do Senhor e também o que o nome de seu pai e o seu próprio significam. Seu pai chamava-se Amitai, que significa amizade. Ele é Jonas, que significa pomba. Representa a paz. Ele é chamado pelo Senhor para levar a amizade e a paz à nação cruel da Assíria. Ele é chamado para manifestar a autoridade do Senhor.

O texto nos mostra que a iniciativa é do Senhor. Foi o Senhor quem falou: "Levanta-te, vai a grande cidade de Nínive, e clama contra ela, porque a sua malícia subiu até à minha presença." Aqui está uma palavra com autoridade. Note que o Senhor levantou profetas porque a religião havia se corrompido. O povo tinha virado às costas ao Senhor. O povo tinha perdido sua autoridade e por isso não servia de bênção mais aos povos à sua volta. O povo de Israel havia perdido o respeito das outras nações. Havia perdido sua autoridade. Este também é o problema da igreja actual. "O que está a faltar para a igreja actual é uma palavra com autoridade. A palavra com autoridade não se encontra aqui; a igreja a perdeu e por isso o mundo tem rejeitado a igreja. A igreja já não tem o respeito do mundo. A igreja perdeu sua autoridade porque não está a pregar a mensagem que o Senhor lhe entregou para proclamar ao mundo. Sendo assim, o que está a faltar hoje é uma palavra com autoridade, uma palavra que venha de fora; uma palavra que não seja do homem, não o que o homem pode produzir, mas algo que vem do outro lado de Deus para o homem."[5]

Deus fala a Jonas. Deus o chama e o envia. É o Deus a agir na história e através da história. Não é a palavra do homem. Não é uma religião fechada, enclausurada, mas aberta para ser bênção aos demais. Jonas estava impregnado de história. Era alguém que olhava somente para dentro. Estava hermeticamente fechado. Jonas era nacionalista. E o seu nacionalismo o fechou na sua história. O facto é que: "O excesso de história na perspectiva histórica de Jonas lhe roubara o desejo de viver na história. Isto porque ninguém vive só de história. Sem trans-história a própria história perde seu valor histórico. O temporal só tem sentido se for vivido com a perspectiva do eterno."[6] É aqui que o Senhor aparece e fala. É aqui que o Eterno se manifesta e rompe com o temporal.

Deus vem ao encontro do homem com a sua Palavra. Toda a iniciativa é de Deus. No Éden é o Senhor quem busca a Adão (Gn 3.9). Quando o povo estava no cativeiro o Senhor veio e chamou Moisés (Ex 3.4-9). Deus vem ao nosso encontro. Ele toma a iniciativa de nos resgatar. Jesus veio ao mundo ao nosso encontro. Ele veio para nos salvar. Ele convida a todos que estão casados, sobrecarregados a se achegarem a Ele (Mt 11.28-30). Deus toma a iniciativa. Ele chama-nos. Ele se manifesta ao homem. Ele fala com autoridade. A iniciativa nunca é nossa é de Deus.

Foi o Senhor quem disse a Jonas: "Levanta-te". É o Senhor que fala connosco. É Ele quem nos comissiona e nos entrega a sua mensagem.

2 – O Senhor sempre vai falar através dos seus eleitos 1

Deus sempre vai levantar seus arautos para manifestar a sua mensagem. Deus não fala através de estranhos. Ele fala através do seu povo. Ele fala através daqueles que Ele comissionou. É interessante ver na Bíblia que muitos daqueles que foram chamados por Deus para falar ao povo, questionavam: "por que eu?" O que é maravilhoso no nosso texto é ver que Jonas tem prazer em falar ao seu povo, mas quando é para falar aos de fora ela não diz nada. Simplesmente foge. Contudo, é bom notarmos o seguinte: "O livro de Jonas nos mostra que a prerrogativa de Deus é fazer aquilo que Ele deseja fazer. Deus tem um trabalho para ti fazeres e talvez, quando isto chega a ti como vontade de Deus a tua pergunta é: Por que eu? Tu serás uma pessoa sábia se obedeceres imediatamente. Não entre em vários problemas, discutindo com Deus, rebelando-se contra Ele, porque eu aviso-te, Deus tem meios para realizar os seus caminhos."[7]

Deus age na história através do seu povo. Israel foi o povo escolhido para ser bênção para as demais nações (Gn 12.3). O povo ficou fechado, se enclausurou, mas o Senhor veio e mostra ao povo através de Jonas que a mensagem do Senhor é para todos os povos e não apenas para Israel. Jonas é um missionário transcultural. Ele tem que deixar seu país e seguir a uma outra nação para falar com autoridade a mensagem do Senhor.

Deus nos escolheu e nos fez seus embaixadores para que possamos anunciar a sua mensagem (Mt 28.18-20; 1 Pe 2.9). "Deus quer utilizar-se de pessoas humanas para transformar situações e vidas. O Deus de Israel não é um Deus que, com uma varinha de condão, interfere magicamente nos destinos humanos, dispensando qualquer atuação de seres humanos. Para atingir seus objetivos, Deus convoca Jonas."[8]

Da mesma maneira que o Senhor convocou a Jonas, Ele está a nos convocar hoje. Ele está a chamar a sua igreja para proclamar a sua mensagem. Já ouviste o convite do Senhor?

Deus vai se manifestar aos demais através de ti. Estás disposto a obedecer o Senhor?

Preste atenção, o Senhor vai falar através de ti. Ele sempre usa os seus eleitos. Jonas sabia que ser enviado pelo Senhor implicava manifestar a graça de Deus. E foi por isso que Ele relutou, pois sabia que a Palavra de Deus era poderosa para salvar o povo de Nínive (Jn 4.1-2). Contudo, hoje a igreja permanece quieta. Está calada como estava calado o povo de Israel. A igreja está na retaguarda como havia ficado o povo de Israel. A igreja fala para dentro. Grita que o pecado está a destruir o mundo, mas não faz nada para que a mensagem do Senhor saia dos seus portões. Agimos como agia o povo de Israel nos dias de Jonas. Contudo, a grande questão é porque a igreja age assim? "A igreja está na retaguarda porque duvida da Palavra de Deus. Como Jonas que duvidou que fosse o Senhor a dizendo: "Vai a Nínive", Jonas foi para outra direcção. A raiz do nosso problema é não acreditar na Palavra de Deus."[9]

É interessante notar que quando é algo que nos agrada a Palavra faz sentido. Quando é algo que não gostamos fugimos dela. Assim fez Jonas. Contudo, Deus age e age através do seu povo. Ele vai falar através de mim e de você.

3 – O Senhor fala através do seu escolhido para manifestar graça aos povos 1-2

Jonas é enviado a Nínive. Mas porque esta cidade?

Nínive era uma cidade idólatra. Tinha como sua deusa Ishtar, que era conhecida como a rainha dos céus. Esta deusa foi adorada em Israel (Je 7.18). Ela era a deusa da guerra e do amor. Amor aqui referindo-se a sexo. A existência da cidade era marcada pela violência e imoralidade.

Quando lemos o nosso texto não fica claro o tipo de maldade que a cidade produz. Sendo assim, mais uma vez pergunto: Por que Nínive?

"Nínive ficou famosa por ter sido a capital de um dos povos mais cruéis do Antigo Oriente, os assírios. Descobrimos algo mais sobre a maldade de Nínive e crueldade dos assírios na mensagem do profeta Naum. Os assírios são comparados a um leão que despedaça as suas vítimas, que estrangula para encher o seu covil de despojos (Na 2.12s). Nínive é a "cidade sanguinária, toda cheia de mentira, repleta de despojos, onde não cessa a rapina" (Na 3.1)."[10] Estamos a contemplar o pecado na sua expressão máxima. Violência, sexo e todo o tipo de crueldade. É em locais assim, o super abunda o pecado que a graça de Deus se manifesta. Veja o que diz Paulo quando escreve aos romanos: "Veio porém, a lei para que a ofensa abundasse; mas, onde o pecado abundou, superabundou a graça" (Rm 5.20). Por que Nínive? Porque o Senhor deseja manifestar a sua graça!

A mensagem da ira de Deus é também a mensagem da graça de Deus. Isto porque o Senhor não resiste a um pecador arrependido. Jonas sabia disto. Por isso, ele tenta fugir de Deus. Nós somos chamados para anunciar a ira do Senhor a esta cidade pecadora. Somos chamados para proclamar a graça de Deus. Precisamos compreender o que o Senhor Jesus disse nos seus dias: "Os sãos não necessitam de médico, mas, sim, os que estão doentes; eu não vim chamar os justos, mas sim, os pecadores ao arrependimento." (Mc 2.17). O propósito do "ministério de Jonas em Nínive é demonstrar a intenção do Senhor estender sua graça as nações do mundo."[11] Este propósito é porque o Senhor não tem prazer na morte do ímpio. Quando o Senhor envia sua mensagem, ela é acima de tudo um chamado ao arrependimento. Jonas compreendia bem isto. Ele sabia quem era o seu Senhor (4.1-2), e nós conhecemos o Senhor?

Deus não se agrada da morte do injusto. É isto que o Senhor nos diz através de Ezequiel: "Desejaria eu, de qualquer maneira a morte do ímpio? diz o Senhor DEUS; não desejo a antes que se converta dos seus maus caminhos, e viva? Porque não tenho prazer na morte do que morre, diz o Senhor DEUS; convertei-vos, pois, e vivei." (Ez 18.23;32). A mensagem do Senhor é uma mensagem de vida. Ele deseja que todos se arrependam e tenham vida. Não importa quão cruéis eles sejam. Não importa quantos pecados cometeram. Deus deseja que o injusto seja justificado. Isto só acontecerá se o seu povo proclamar a mensagem da graça.

Deus envia Jonas a cidade de Nínive, a capital do império para condenar o pecado da cidade, mas sua mensagem é acima de tudo uma mensagem de esperança para todo aquele que se arrepender, pois o Senhor deseja que todos vivam.

Jonas é investido de autoridade. Autoridade do Senhor, para deixar a sua terra e entrar no território inimigo e proclamar a mensagem do Senhor. Ele é enviado para anunciar que a graça e a bênção do Senhor é para todos. Este também é o nosso desafio.

Guisa de Conclusão

O livro de Jonas é tremendo. Mostra-nos um profeta humano a viver todos os dilemas que nós vivemos. Creio que é por isso, que não gostamos tanto dele. Ele é a nossa própria imagem. Suas incongruências, seus preconceitos demonstram que nós também somos assim. Seu conhecimento teórico é correcto, mas sua prática é duvidosa. Será não somos assim também?

Como diz Eugene Peterson: "A história de Jonas é subversiva. Ela se insinua indiretamente por meio da comédia e do exagero e invade nossas idolatrias de carreira aprovadas pela cultura, e enquanto estamos entretidos e alegres, com as defesas inertes, ela cativa nossa imaginação e nos leva a um caminho que conduz à renovação de nossa santidade vocacional."[12]

Chamar-nos de volta ao caminho é compreendermos o seguinte:

      A iniciativa é sempre do Senhor. Ele dá o primeiro passo na restauração das pessoas.

      O Senhor sempre utilizará o seu povo. Nós somos os seus mensageiros e devemos em obediência anunciar os seus arautos.

      O Senhor manifesta a sua graça através do seu povo.

Que possamos ser renovados e ver que necessitamos ir ao encontro dos que estão destruídos pelo pecado e anunciar-lhes a mensagem transformadora da graça do Senhor.

Que Deus nos abençoe.






[1] D´ARAÚJO FILHO, Caio Fábio. Jonas o sucesso do fracasso, 1ª Edição VINDE Comunicações, Niterói, 1991

[2] BALANCIN, Euclides Martins e STORNIOLO, Ivo. Como ler o livro de Jonas. Deus não conhece fronteiras, 2ª Edição Edições

Paulinas, São Paulo 1991

[3] KAISER JR., Walter C. Teologia do Antigo Testamento, 2ª Edição Edições Vida Nova, São Paulo 1998

[4] RAD, Gerhard Von. Teologia do Antigo Testamento II, 1ª Edição ASTE São Paulo, 1974

[5] KENDALL, R. T.  Jonah an exposition, 2ª Edition Paternoster Press, Carlisle , 1985

[6] Op. Cit.

[7] Op.Cit.

[8] KILPP, Nelson. Jonas – Editora Vozes, Petrópolis, RJ Editora Sinodal São Leopoldo, RS 1994.

[9] Op.Cit

[10] Op.Cit

[11] Op.Cit.

[12] PETERSON, Eugene H., A Sombra da Planta Invisível, 1ª Edição, Editora United Press Campinas SP 2001

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