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Publicado el November 22nd, 2008, 15:12

Igrejas e Propósitos

Pastor Natanael Gabriel da Silva

Igreja Batista Em Barão Geraldo

Não há como negar que estamos respirando novos ares sobre a forma de
ser da Igreja. A multiformidade tomou conta do redirecionamento das
comunidades religiosas no limite do bizarro. A questão já não é se
línguas estranhas existem ou não, e pouca gente dá importância para
isto hoje. Os tempos em que se discutia o "bater palmas" durante a
liturgia já foi superado até por católicos. Já não se fala mais sobre
determinados instrumentos, se são sacros ou não, ou até determinados
cânticos e suas letras pouco convincentes do ponto de vista bíblico.



A minha questão não é tentar fazer sobreviver o antigo modelo, até
porque o antigo também havia sido inovação e a cada tempo "antigos" e
"novos" se chocam para gerar o "novíssimo" que ficará antigo e que,
por sua vez, também será substituído. Quando alguém diz: - O que será
da Igreja daqui a tantos anos? Está perguntando em linha reta. A
melhor resposta poderá ser: - Sei lá! Qual o "antigo" que será
substituído pelo "novíssimo" que acabará ficando velho, superado, e
que um dia será lembrado apenas como modelo histórico?



O problema central não é este. Creio que a pergunta que se levanta, ou
a postura que se tem, não deve ser a rejeição pelo "novíssimo"
esperando que ele fique "antigo" – Já que vai ficar antigo, para que
mudar? Isto é uma forma de se justificar não ter saído do lugar
sabendo-se por antecipação que as coisas continuariam do mesmo jeito.
A questão é: como movimentar uma dinâmica sabendo-se que não será a
forma final e ao mesmo tempo como não permitir que uma determinada
forma se torne impossível se ser mudada? É como se você fosse pintar
um quadro. O quadro não pode ser "atualizado". Veja o caso da
Monaliza. Só tem valor porque ficou "pregada" num tempo, é o "retrato"
de uma época e estilo do autor. O autor, que pintou outros quadros,
mudando assim a sua forma de ver o mundo, não pode mudar o olhar
enigmático da Monaliza. Seu valor cultural para a humanidade está no
fato de atravessar o tempo: mudam-se as interpretações, mas o olhar da
Monaliza continua sendo o seu mistério. Um outro exemplo: passei três
dias em Iguape durante esta semana. Já a conhecia. Só que ver aquele
museu a céu aberto, de uma das mais antigas cidades do Brasil, é
realmente fascinante. Casas coloridas, na tentativa de resgatar a
época colonial. Quem não sabe que aquelas casas foram recuperadas,
recuperadas e recuperadas. Só que foram recuperadas semelhantes ao que
poderiam ter sido na época colonial, e elas só têm valor quando se
aproximam disto. Uma preciosidade. Entre o casario, uma casa moderna,
bonita, cheia de jardins, vidros temperados e garagem. Uma casa
moderna, cheia de cimento, que se misturou com o museu. Uma linda
casa, porém um monstrengo. Estava fora de lugar! Deveria estar num
bairro, ou à beira mar, mas não ali.  Ali, ela se transformou numa
imagem bizarra, grotesca, intrusa, fora de lugar, uma aberração, quase
um erro da natureza (estou dizendo do arquiteto, é claro), qualquer
coisa parecida com um E.T.



O que estou querendo dizer é que qualquer propósito, qualquer belo ou
relação deve-se fazer a partir da função: algo pode ser belo, por ser
exatamente fora de tempo, e pode ser feio mesmo sendo moderno. Cada
dia que passa estou achando que as Igrejas estão ficando feias, cheias
de propósitos, mas feias. Se parecem com máquinas que engolem gente.
Tenho lido sobre "igrejas com propósitos", "ministérios com
propósitos", "famílias com propósitos", "pequenos grupos com
propósitos", etc. . O Pr. Isaltino (Igreja Batista do Cambuí) afirmou
numa das suas pastorais (ou será que foi numa conversa?) que daqui a
pouco teremos "zeladoria com propósitos". A questão que tem sido
colocada é: "como fazer a minha igreja crescer?" Não é necessário
dizer que neste "propósito" vale tudo. São cultos "shows", "louvor
profético", repetição de cânticos em euforia com a mesma música e
letra por quinze minutos, trinta, quase uma hora! Quando se estabelece
um propósito, o que vale é enxergar o alvo. Que coisa consumista! Quem
fica olhando para o final da estrada não vê o jardim! Na pressa de
chegar ao ponto, esquece que enquanto caminha, se vive, o sentido da
vida não é chegar ao fim, mas apenas caminhar.



Gosto de pensar na Igreja como este caminhar contemplativo da vida.
Não sei se consigo enxergar muito à frente, porque o que está lá pode
ser apenas uma miragem, projeção do presente como se houvesse um
deslocamento virtual do que é (ou parece ser) sendo colocado no
futuro, ou seja, aquilo não é futuro, é apenas o presente
"modificado". É miragem, que só tem valor como imagem, quando se chega
lá só areia e areia - nada mais. Isto gera uma certa frustração.



Gosto de pensar numa Igreja que não tem um único rumo, onde tudo é
experimental, parando-se a cada passo para se ver as flores. Isto
poderá não fazer a Igreja crescer tanto (o que não acredito!), mas que
a gente vai ter mais tempo para desfrutar da benção da vida, isto com
certeza! Alguma coisa como uma planta que cresce e faz nascer os
brotos onde não se espera, que procura o sol e se inclina em sua
direção, que faz das folhas pequenos copos como depósitos de águas e
desabrocha em flores como se jamais pudesse haver algo igual.  Alguém
poderá dizer que não ter  um "propósito" já é um "propósito". Bem,
neste caso, diria que este propósito seria associar Igreja com poesia,
vida com viver e conviver, sem engessamento, contemplando as bênçãos
de Deus que sempre ficam esquecidas quando não se olha para os lírios
do campo.


Fonte:
http://www.teologicadecampinas.com.br/index.php?view=article&catid=17%3Aartigos-pastorais&id=28%3Aigrejas-e-propos&option=com_content&Itemid=35

Por InfoBatista, en: General