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Publicado el November 22nd, 2008, 15:23

PAI NOSSO,
QUE ESTÁS
NOS CÉUS

Dezoito horas. A correria de sempre, na esfumaçada capital do trabalho: metrôs lotados, pontos de ônibus abarrotados, multidões de universitários chegando às bíbliotecas e salas de aula, donas de casa terminando o jantar, lojas baixando suas portas de aço, e lá no horizonte o sol, ah, esse velho companheiro do dia, também manda beijinhos e abraços, mas já está a brilhar em outras vai brilhar em outras plagas...

Entretanto, na vida do Jônatas, as coisas não serão nunca mais como antes. Lá está ele, andando apressado pela calçada da Barra Funda: saiu do trabalho, um trabalho que não é o que sonhava (burocrata de escritório), mas que lhe dá fôlego e gás para bancar os seus estudos: está cursando engenharia mecânica. Ele é apaixonado por máquinas. Está no terceiro ano.

Enquanto caminha, apressado, um motoqueiro avança o sinal fechado e vem desenfreado ao seu encontro. Jônatas não podia imaginar o inimaginável: a moto vem exatamente em sua direção. Ele pensou que o rapaz perdera a direção, e que iria bater nele, jogando-se no muro, depois. Mas não era nada disso: enquanto a moto chegou, brecando em sua frente, uma van estacionou, e dois homens encapuzados saíram, correndo em direção ao rapaz. Agarraram-no, mandaram que ficasse quieto e fizeram-no acompanhá-los para o interior do carro. "Meu Deus, um seqüestro!", foi o que pensou Jônatas. E ele não estava errado.

Logo amarraram uma faixa em seus olhos, e colocaram um chumaço de algodão em sua boca. Amarraram seus punhos um ao outro, e alguém lhe disse: "Moleque, é bom ficar bonzinho, se quiser sair vivo dessa." Um outro, menos letrado, berrou: "Nóis aqui, mano, num tem nada a perder, falô? Se marcá bobera, tá ferrado: nóis apaga você rapidinho. Mas se for bonzinho, a gente te deixa viver, falô? Se vacilá, babáu". Pelo tom gritado e pela gíria altamente de malandro, Jônatas percebera que estava encrencado. Parece até que o pastor estava a adivinhar!

Sim, pensou Jônatas, "a mensagem de ontem foi para mim, direitinho! Meu Deus, quem diria que hoje eu seria o seqüestrado?" Jônatas era um jovem crente fiel. Namorava uma menina muito correta, e tinha uma vida moral digna. Sua vida era servir a Deus com empenho, trabalhar, estudar, namorar, e nadar um pouco, quando tinha tempo. Participava do coral jovem da igreja, e gostava de distribuir folhetos, com o departamento de evangelismo. Pregar não era o seu forte. Certa vez, quando começou a pregar, ficou tão nervoso, que parou no meio e teve uma convulsão intestinal, passando quase uma hora nesse retiro inesperado. Mas era muito querido e tinha pinta de galã.

O pastor, na noite anterior, estava meditando na violência urbana, e pensava no seqüestro de Marcinho, um jovem muito conhecido na cidade, que durara quatro meses. Que sofrimento, tanto o dele, quanto da família! Quanta violência, quantas dificuldades! Mas o Marcinho temia ao Senhor e dissera estar pronto para morrer. Jônatas lembrou-se do apelo do pastor: "Se você também quer ter a força que levou Marcinho a não temer a morte, então peça isso a Deus, e Ele lhe dará". Jônatas foi à frente e uma irmã orou por ele. E agora estava vivendo situação idêntica! "Só pode ser uma provação! Meu Deus, tenha misericórdia! "

Jogaram-no numa cozinha velha, trancaram-no e foram embora para outro cômodo da casa. Gritar não podia, por causa do algodão. Enxergar? Menos ainda. Banheiro? Nem pensava nisso. Mas ele podia orar. "Ninguém pode me impedir de fazê-lo!" Ao longe, num outro cômodo, escutou alguém falar com seu pai: "Cara, tamo com teu filho. Arruma a grana, senão nóis mata ele, falô, véio? A vida dele tá na nossa mão!" Jônatas então orou: "Senhor: a minha vida não está nas mãos desses marginais; ela está na tua. Cuida de mim, e seja o que o Senhor quiser!"

Orando assim, ele obteve a paz que precisava, mesmo numa situação de absoluta impotência. Jônatas cria que na impotência do homem o Poder de Deus se manifestava, então que Deus fizesse a vontade dele. Viver ou morrer, não era o mais importante; ser encontrado fiel sim. E isso ele tinha prucurado ser. Então que o sono viesse. E, antes que viesse, lembrou-se da frase que mais gostava de dizer, sobre Deus: "Pai nosso que estás nos Céus! Pai nosso que estás nos Céus! Olha-me, Pai, vê aonde estou..." E dormiu.

Não se sabe quanto tempo passou. Mas Jônatas escutou um pontapé numa porta: "São vocês! Acabou a brincadeira, bandidos! A casa caiu!" Jônatas pensou: "O que? A polícia já chegou? Como é que conseguiram? " E escutou um dos marginais a falar: "Pelo amor de Deus, não me mate! Por favor, não me mate!" E não ouviu mais nada! Então a tranca da porta se abriu. Acenderam as luzes. tiraram o algodão de sua boca, a venda de seus olhos, as cordas de seus punhos e as amarras de seus pés, colocando-o ereto, livre. Agora Jônatas, com o coração disparado, e com o choro descontrolado, só dizia uma coisa: "Pai nosso, que estás nos Céus! Pai nosso, que estás nos Céus! Aleluia!" Quando olhou os policiais que lhe libertaram, abraçou-os longamente, em lágrimas. Estranhou não estarem fardados, e que chorassem juntamente com ele. E disseram, emocionados: "irmão: o nosso Pai está nos Céus, e está aqui também; pode ir em paz! Pegue o primeiro taxi que estiver parado. Seu pai pagará a conta na porta da sua casa!"

Jônatas saiu correndo. Tropeçou, levantou, correu, andou, saiu daquela rua sem iluminação, rumo à avenida que passava lá em cima. Ele não fazia a menor idéia de onde estava. Sentia-se como que num grande pesadelo. Mas sabia que tinha que correr. Ao chegar à avenida, um taxi estava parado. O motorista disse: "É você?" Ele respondeu: "Sei lá, quem o senhor está esperando?" "Estou esperando um rapaz que se chama Jônatas. É você?" Ele disse: "Sim, sou eu!" "Então vamos!" O motorista saiu correndo. Estavam na zona oeste. O taxi rumou para a casa de Jônatas. O motorista tinha sido orientado a ir exatamente para a casa dele. E, ao chegar, seu pai já estava na porta, com o dinheiro. Jônatas estava confuso: "motorista, quem mandou o senhor vir exatamente aqui?" Ele disse: "foram dois homens, que peguei no centro da cidade. Disseram que um rapaz viria, e que era para levar até a casa dele, me deram o endereço, e disseram que alguém iria pagar a corrida!"

Jônatas abraçou o pai, chorou, viu sua mãe, seu irmão, sua namorada, e perguntou: "Quanto tempo faz tudo isso?" O pai disse: "filho, são cinco da manhã! Só nos tranqüilizamos quando ligaram para cá, dizendo: fique tranqüilo, que seu filho já vem, e precisa que lhe paguem a corrida do taxi. Diga a ele que o Pai Nosso tem um plano pra ele". Arrepiado, trêmulo, Jônatas lembrou-se dos dois homens que o livraram: sem fardas, sem armas, emotivos, foram enviados por Deus. "Pai, eu fui seqüestrado! Teriam sido os anjos de Deus que me libertaram?" Respondeu-lhe o pai: "Filho, se foram anjos eu não sei; eu só sei que você está aqui e o Pai nosso tem um plano para nós todos. Você e todos nós, que lhe amamos, nascemos de novo. Bem-vindo à vida, meu filho!" E o beijou.

E tudo terminou, enquanto o sol amanhecia na cidade. Uma familia socorrida contemplava o espetáculo do amanhecer, sorrindo e chorando, no silêncio e no balbuciar de hinos em gratidão a Deus. E, enquanto faziam isso, suas mentes e corações só se lembravam de uma coisa:

PAI NOSSO, QUE ESTÁS NOS CÉUS!

Para tantos outros, que foram seqüestrados, o final fora trágico, e infelizmente, para tantos outros ainda o seria, infelizmente. Poderia ter sido assim com Jônatas. E teriam que aceitar e conviver com a tragédia. Mas, como bem disseram os libertadores, Deus tinha um plano para Jônatas. Era cedo para partir. Ainda havia muito a fazer. E, quem sabe, outros tantos a libertar, não de seqüestros, mas da incredulidade de uma vida sem Deus. O Criador estava atento, e continuava soberano sobre a nossa história. Assim, com confiança, poderiam continuar a dizer:

PAI NOSSO, QUE ESTÁS NOS CÉUS!
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Wagner Antonio de Araújo
novembro, 20, 2006

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