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Publicado el November 23rd, 2008, 8:19

Meus queridos,
Esta crónica foi escrita num momento muito delicado da minha vida.
A crónica é vivida no presente, mesmo sabendo que os factos
aconteceram já faz dois meses. Narro o encontro que tive com meu tio e
a tarde que desfrutei com ele.
Gidalte foi um homem especial que viveu a vida com paixão. Ele estava
sereno, tranquilo e dedicado à sua família e quando menos esperávamos,
ele foi convocado para à presença do Pai.
A crónica foi escrita entre lágrimas, pois no dia em que foi escrita
fazia 37 anos da partida do meu avô e dois meses da partida de meu
pai.
Sendo assim, espero que este momento de tristeza e lágrimas de algum
modo sirva para edificar as vossas vidas.
Quando escrevo sou consolado. No meu processo de escrita, vou deixando
que a paz tome conta do meu ser. E espero sinceramente que isto possa
acontecer convosco enquanto desfrutam da leitura desta minha crónica.
nEle que é a nossa paz e consolo
Marcos Amazonas
Teologando
Estamos sentados a conversar, enquanto esperamos que o almoço fique
pronto. É início da tarde, procuramos relaxar um pouco, pois a
situação é angustiante. Não é fácil ter que ir ao hospital todos os
dias e ver papai completamente dependente de cuidados. É triste vê-lo
sem reacção, mas temos que ser fortes e ter a consciência de que ele
está nas mãos do Pai.
Moysés, para nos agradar resolve fazer um churrasco. Estamos sentados,
relembrando as histórias da nossa família. Nesse momento, aparece o
nosso tio Dida com o seu sorriso inconfundível. Sempre jovial, o tempo
parece que não havia passado para ele. Que alegria foi para nós poder
vê-lo. Falamos para ele comer connosco, mas ele disse que já havia
almoçado, mas deu-nos a alegria de passar a tarde em nossa companhia.
Conversamos sobre a situação do papai e por mais triste que possa ser,
reconhecemos que o nosso velho vai nos deixar. Entretanto, este
reconhecimento, mesmo sendo algo triste, está marcado pela esperança
do reencontro.
Estamos a conversar enquanto almoçamos. Não estamos tristes, mas sim
confortados e consolados. Conversa vai, conversa vem e o Dida diz que
ainda tem a Bíblia que a Miriam lhe ofereceu. O assunto então passou
para a esfera da teologia, mas não para o teologismo. Não para uma
conversa árida, cheia de termos académicos. Ficamos a teologar de modo
simples, mas profundo. Gidalte sabe do que fala. É alguém com
experiência. Conhece o poder de Deus, mas sabe o que é ter estado
escravizado pelo diabo. Lembramos das suas lutas com o diabo. Ele
falou-nos da crueldade que as hostes espirituais da maldade são
capazes de fazer. Falou de como ficou livre dos seus vícios.
Assunto puxa assunto e o tema passou a ser a escatologia. Conversamos
sobre o céu e a vinda de Jesus. Uma conversa agradável, sem
preconceitos e muito menos barreiras denominacionais. O nosso coração
exultava em ver o nosso querido tio firme no evangelho. Seu jeito
inconfundível sentado com as pernas cruzadas e a segurar as mãos. Seu
sorriso e o rosto a brilhar a falar-nos das coisas de Deus, meu
coração está exultante, pois eu sei as lutas trilhadas por ele.
Estamos ali a falar e não vemos o tempo passar. Gidalte fala dos
netos. Fala-nos da família que nós não conhecemos, pois com a nossa
mudança de estado e país, deixamos de ver o nascimento dos nossos
primos. Falar de família nos faz olhar para trás e lembrar os nossos
avós e ver o cuidado de Deus para com a nossa família. Todos os nossos
temas estão impregnados de teologia e não conseguimos deixar de ficar
encantados com isto.
Bem, já estamos no fim da tarde e temos que sair para o hospital para
ver o papai. Dida se despede e sai. Nossos corações estão exultantes.
Passamos o resto do tempo a falar dele e a lembrar os momentos que
vivemos ao seu lado. No hospital as coisas continuam do mesmo jeito.
Papai continua em coma e nós vamos ali para dedicar-lhe o nosso amor e
dizer que continuamos ao seu lado e que sempre estaremos ao seu lado,
pois temos a certeza que nada irá nos separar. O Senhor que irá
recebê-lo em breve é o mesmo que nos receberá no seu tempo
determinado.
O tempo passa e nós não nos damos conta disso. É dia das mães, Moysés
quer que sigamos com Cristina para casa da mãe dela, mas nós não
estamos em espírito de festa. Mirza e Miriam estão longe dos filhos e
eu estou longe da esposa e filhos, nossa mãe também já está com o
Senhor. Os filhos e maridos das minhas irmãs não podem homenageá-las e
eu não posso juntar-me aos meus filhos para homenagear minha esposa.
Vamos para o hospital e ficamos o tempo permitido com o nosso querido
pai. Oramos com ele e conversamos. Cada dia é mais um dia para
dizermos o quanto o amamos e também para dizer que não o esqueceremos.
Deixamos o hospital e decidimos ir visitar a Suely. Foi um momento
muito especial, mesmo tendo sido tão pouco tempo. Saímos e seguimos
para casa da tia Dulce. Entretanto, no caminho para casa da tia Dulce,
vemos o Dida a lavar o carro com os dois netos. Paramos para falar com
ele. Investimos uns quinze minutos em conversa com ele. O seu maior
prazer foi apresentar-nos os netos. Teve o cuidado de chamar a neta
para nos apresentar. Estava feliz e sorridente. É um patriarca
orgulhoso, que mostra sua prole. Deixamos o Dida e seguimos para a
casa da tia Dulce. Ali encontramos os primos, é uma alegria muito
grande. Eu vi uma foto do meu querido e amado avô, não posso conter a
emoção e choro ao pedir que a tia me empreste aquela foto para fazer
uma cópia para mim. Miriam fica preocupada e tenta me acalmar. Tudo se
normaliza e ficamos a conversar. Como é bom poder estar com aqueles
que nós amamos.
Regressamos para casa e eu tenho que me preparar para pregar na Igreja
que marcou a minha vida. Tenho que pregar na igreja onde fui
consagrado ao ministério pastoral e que foi a igreja onde meu pai
exerceu seu ministério. É um momento delicado, a emoção é muito
grande, mas pela graça de Deus eu prego. Volto para casa alegre, feliz
por tudo quanto o Senhor me deixou viver neste dia.
É verdade, hoje faz dois meses que meu pai faleceu e trinta e sete
anos do falecimento do meu avô. É uma data triste e meu coração está
apertado, não tenho vontade de fazer nada. Quero ficar quieto num
canto. Contudo, é neste dia que sento-me diante do computador para
escrever, pois quando escrevo derramo o que vai dentro de mim. Pois é,
hoje é um dia triste e neste dia é que consigo criar coragem para
escrever sobre o que aconteceu nesta segunda-feira, dia 7 de Julho de
2008. Foi na segunda que a tragédia se abateu sobre a nossa família. A
loja da nossa tia Sônia foi assaltada. Ela chama o Dida e este sai com
o genro para ver se consegue alcançar o ladrão. Entretanto, ele passa
mal e vem a falecer. Miriam me liga para dar-me a notícia. Não posso
atender porque estou aconselhando uma família. Ela fala com Lílian,
que depois me diz o que aconteceu. Que dor profunda invade meu ser.
Que tristeza!
Tento falar com minha tia e não consigo. Vou procurando falar com toda
a família. Mas não posso fazer nada e muito menos eles. O Dida já
partiu. Ele já está com o Senhor. Eu cá fico com a lembrança de uma
tarde que passei teologando com ele, fico com a imagem do seu sorriso
em nossa despedida e digo a todos que farei aquilo que ele fez e que o
seu nome significa. Gidalte, pois é, eu exaltarei o Senhor.
Até breve Dida.
Coimbra, 18 de Julho de 2008
Pr. Marcos Amazonas
Por InfoBatista, en: General