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Publicado el December 12th, 2008, 18:42

A família do pastor

Osmar Ludovico


É comum encontrarmos líderes e pastores evangélicos vivendo duas
realidades bem distintas uma da outra. De um lado um ministério
público bem sucedido e conhecido, por outro uma vida familiar e
afetiva fragmentada e desestruturada. Por trás de pastores queridos e
admirados por suas congregações, sofrem esposas mal-amadas e filhos
carentes.

A fé cristã, em especial para os pastores, tem se tornado
institucional, pragmática, técnica, racional, ativista e profissional.
Quando isto acontece, olhamos somente o desempenho e os resultados do
ministério e nos distanciamos dos vínculos, da intimidade, dos afetos
e da relacionalidade.

Famílias não são perfeitas. Sabemos que existe um ideal e uma busca
por santidade que não podem ser menosprezados na caminhada de fé, no
entanto, uma ênfase numa vida sem falhas, sem derrotas, sem
sofrimento, contrasta com o relato bíblico dos homens que Deus usou.
Ser uma família extraordinária, feliz o tempo todo e sem problemas é
um fardo difícil de suportar e tem dois destinos previsíveis: a
frustração e desilusão ocasionadas pelo abismo entre o discurso e a
prática, ou então a hipocrisia e a espiritualização que escondem e
disfarçam o erro. E como é difícil para os pastores exporem seus erros
e suas fraquezas. Sem ter com quem compartilhar, suas crises e
problemas tendem a fi car mais agudos e ao mesmo tempo mais escondidos
e camuflados.

A família de um pastor é também humana, sujeita aos desencontros, às
crises pessoais e relacionais. Pastores não vivem emocionalmente bem
as vinte e quatro horas do dia, sete dias por semana. Esposas de
pastores não possuem todos os dons e virtudes e seusfi lhos não se
comportam de maneira perfeita o tempo todo.

Basta ser uma família comum, humana, capaz de celebrar, afirmar e
nutrir o que há de bom, aceitando, perdoando e sendo paciente com suas
ambigüidades e ambivalências. Família que reflita a graça de Deus,
onde a exigência da perfeição, com seu legalismo acusador e cobrador,
dê lugar ao amor paciente e benigno e ao perdão restaurador e
terapêutico.

São muitos os pastores cuja fidelidade à Palavra, zelo por Deus,
entusiasmo na sua vocação e dedicação ao ministério são dignos de
apreciação e reconhecimento. Tornam-se, no entanto, desprovidos de
amor e de carinho, e sua esposa e filhos sofrem não somente com suas
prolongadas ausências, como também pela pobreza de suas demonstrações
de afeto e ternura.

O resultado é uma separação entre o ministério público e a família.
Muitas pregações, muitas viagens, muitas platéias, muitos compromissos
eclesiásticos e ao mesmo tempo um distanciamento gradativo e
progressivo da experiência de uma alma apegada a Deus numa relação de
afeto, de amor e de intimidade. E como conseqüência também um
distanciamento gradativo e progressivo da experiência de uma relação
familiar baseada no vínculo, na ternura, no respeito, na admiração e
na comunhão.

O itinerário espiritual mais difícil de nossas vidas de pastores é o
que vai do isolamento e do ativismo à comunhão com Deus, conosco mesmo
e com o próximo. Para sermos reconhecidos, admirados e aceitos,
mergulhamos no afã pragmático de encher nossas igrejas e manter o povo
animado e ativo. Quanto mais atividade e mais agitação, mais nos
tornamos estressados e impessoais. Vivemos nossas vidas no ativismo
religioso e nos tornamos maridos cansados e calados para nossas
esposas e pais ausentes e indisponíveis para nossos filhos. O pastor
bondoso e dedicado que a igreja conhece não combina com o marido e o
pai em casa. Famílias que sofrem, e sem contexto para se abrirem,
escondem suas frustrações sob máscaras de desempenho religioso.

É o Espírito Santo que nos leva a ter a coragem de sair de nossos
pedestais e papéis religiosos para reconhecer que temos relegado
nossas famílias ao segundo plano. Nossas esposas e nossos fi lhos têm
se tornado tão simplesmente coadjuvantes de uma peça onde nós,
pastores, somos as estrelas que brilham. Arrependimento é a
desconstrução desta maneira irreal de viver e a coragem para buscar o
amor, a intimidade, o afeto e vínculo, restaurando de forma saudável a
relação marido/esposa e pais/filhos.

Fonte: http://www.revistaenfoque.com.br/index.php?edicao=85&materia=1147

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