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Publicado el December 12th, 2008, 18:49

Por que não creio na reencarnação

Israel Belo de Azevedo


Quando um brasileiro abre um livro de teologia ou, particularmente, de
apologética, encontra respostas para temas comuns nos Estados Unidos e
na Europa, mas nada sobre as perguntas que a cultura brasileira lhe
impõe. Uma dessas perguntas é sobre a reencarnação. Temos livros e
livros sobre ressurreição, mas quase nada sobre reencarnação.

EU CREIO NA BÍBLIA
Para tratar deste assunto, precisamos assumir dois pressupostos.
Religião é mesmo uma questão de opinião. No entanto, o diálogo, nos
termos cristãos, é possível quando partimos de uma base comum:
aceitamos que a Bíblia é a revelação de Deus. Isso quer dizer que
nossas opiniões são secundárias porque apenas interpretam uma Fonte
primária, que recebemos como a Palavra completa de Deus.

Este pressuposto deixa claro que a Bíblia não precisa de complemento
do tipo "Jesus disse e fulano acrescentou" ou "Jesus disse, mas
beltrano complementou".

Afirmar que devemos ler a Bíblia como sendo a Palavra completa de Deus
não é afi rmar que nossas interpretações sejam infalíveis. Precisamos
estar prontos para nos corrigir permanentemente. Por isso precisamos
ler a Bíblia com coragem e com inteligência; coragem para mudar de
opinião e de atitude; inteligência para não levar a Bíblia a dizer o
que ela não diz. Nesta tarefa, somos socorridos por um princípio: a
Bíblia se interpreta a si mesma. É tarefa equivocada derivar da Bíblia
qualquer autorização para a crença na reencarnação, se a Bíblia é
assumida como Palavra de Deus que se explica a si mesma. Os textos
examinados mostraram a fragilidade desta hipótese à luz da Bíblia.

Um texto utilizado pelos reencarnacionistas é Mateus 16.13-20, em que
Jesus pergunta aos discípulos a opinião popular a Seu respeito.
Aparecem três respostas: João Batista, Elias e Jeremias.

João Batista, filho de Isabel, parenta de Maria, mãe de Jesus (Lucas
1.36), acabara de ser decapitado (Mateus 14.10); logo, logicamente
Jesus não poderia ser uma reencarnação de João Batista, nascido poucos
meses antes dele (Lucas 1.57). Em síntese, a idéia da reencarnação,
nesse texto, fica complemente prejudicada. Se as respostas populares
pressupusessem a reencarnação, mencionariam Elias, Jeremias ou outros
profetas, nunca o contemporâneo João Batista.

Quanto a Jeremias, ele é mencionado duas vezes nos Evangelhos. Duas
das profecias de seu livro são citadas por se cumprirem ao tempo de
Jesus Cristo. A primeira é para explicar a fuga da família de Jesus
para o Egito (Mateus 2.17). A segunda é para entender a atitude de
Judas, ao trair Jesus (Mateus 27.9).

O caso de Elias é mais complexo. João Batista é alguém que desenvolve
seu ministério num estilo bem próximo de Elias e com uma missão que se
assemelha a Elias. Os estilos seriam próximos porque viveram à margem
da sociedade, com grande parte do tempo passada no deserto e se
alimentando de um modo alternativo; combateram os governos vigentes e
conclamaram seus povos ao arrependimento. Este é o sentido da
expressão "no espírito e no poder de Elias".

Jesus se refere a João Batista como Elias, quando recebeu os seus
atônitos discípulos (Mateus 11.12-14; Mateus 17; cf. Marcos 4.9-11).
Jesus vê uma continuidade ministerial entre Elias, o grande profeta do
Antigo Testamento, e João Batista, aquele que inaugurou o ritual do
batismo no Novo Testamento. No entanto, o próprio João Batista negou
ser uma reencarnação de Elias. Suas palavras são claras.
"Perguntaram-lhe: 'E então, quem é você? É Elias?' Ele disse: 'Não
sou'. É o Profeta? Ele respondeu: 'Não'.

Finalmente perguntaram: 'Quem é você? Dê-nos uma resposta, para que a
levemos àqueles que nos enviaram. Que diz você acerca de si próprio?'
João respondeu com as palavras do profeta Isaías: 'Eu sou a voz do que
clama no deserto. Façam um caminho reto para o Senhor'" (João
1.21-23).

EU PREFIRO A GRAÇA
Os defensores da reencarnação entendem que tudo aquilo que uma pessoa
faz irá lhe beneficiar ou prejudicar. Assim, por exemplo, uma pessoa
que comete um homicídio poderá ser assassinada na outra vida. Tudo o
que uma pessoa faz poderá "pesar a seu favor", sendolhe "dado como
mérito". Essa lei também explica muitos sofrimentos "inexplicáveis".
Por exemplo, uma pessoa boa, caridosa, querida por todos, de repente
sofre um acidente e passa a amargar o resto de seus dias inutilizado.
(...) Aquela pessoa boa e caridosa pode ter sido um cruel assassino
numa outra vida e estaria resgatando, assim, sua dívida". Segundo esta
visão, existe "uma possível abreviação do carma: (...) a prática do
bem e da caridade. 4 Em outras palavras, pecados não podem ser
perdoados, porque devem ser punidos. Não há como conciliar
reencarnação e graça.

Serve aqui uma seleção de frases retiradas de uma entrevista com o
vocalista irlandês Bono, da Banda U2: "É espantosa a idéia de que o
Deus que criou o universo pode estar buscando por companhia, por um
relacionamento real com as pessoas, mas a coisa que me põe de joelhos
é a diferença entre a Graça e o Carma.

No coração de todas as religiões está a idéia do Carma. Aquilo que
você faz retorna a você: é o olho por olho, dente por dente. Ou,
segundo as leis da Física, a toda ação corresponde outra ação igual ou
contrária. Está claro para mim que o Carma é o verdadeiro coração do
universo. Ao mesmo tempo, vem esta idéia chamada Graça, que derruba a
bobagem de que a gente colhe aquilo que planta. A Graça desafia a
razão e a lógica. O amor interrompe as conseqüências das ações, o que,
em meu caso, é a verdadeira boa nova, já que tenho feito uma porção de
bobagens.

Eu estaria em dificuldades se, ao fim, o Carma fosse o meu juiz. Isto
não desculpa meus erros, mas estou me agarrando à Graça. Estou me
agarrando ao fato de que Jesus tomou meus pecados na cruz porque eu
sei quem eu sou e espero não ter que depender de minha própria
religiosidade. Amo a idéia do Cordeiro Sacrificial. Amo a idéia que
Deus diz: "Olha, seus cretinos, há conseqüências evidentes para o
caminho que estão tomando, para o egoísmo, e há a morte como parte da
sua natureza tão pecadora. Temos que enfrentar isso, e não ficar
vivendo uma vida boa. Certo? Há conseqüências para as ações. O centro
da morte de Cristo é que Cristo tomou os pecados do mundo, de modo que
o que nós fazemos não cai sobre nós, e a nossa natureza pecaminosa não
resulta na óbvia morte. Este é o ponto. Isso nos torna humildes. Não
são boas obras que nos levam aos portões dos céus". (Bono: Grace over
Karma. Excertos do livro Bono: In Conversation with Michka Assayas.)

A graça, que é uma teologia bíblica sólida, não nega a maldade humana;
antes, atribui-lhe as desgraças da vida, sob várias formas. Aprendemos
isso na Bíblia (Romanos 3.23,24; Romanos 6.23). Nosso pecado foi
perdoado porque alguém foi punido em nosso lugar: Jesus Cristo, que
era justo. Isto pode não ser lógico, mas é como Deus fez (Romanos
5.15-17). Não há como pensar nossa vida como uma planilha de débito e
crédito. A coluna do débito sempre ganhará da de crédito, se formos
honestos. Graça é liberdade. Não há motivo para se temer a próxima
vida. Morreremos e ressuscitaremos. Se morrermos com Cristo,
ressuscitaremos com Cristo, sem medo. Aprendemos isso na Bíblia
(Romanos 6.2).

Para pôr fim à nossa culpa, sem fim, aprendemos na Bíblia que "era
necessário que ele se tornasse semelhante a seus irmãos em todos os
aspectos, para se tornar sumo sacerdote misericordioso e fiel com
relação a Deus, e fazer propiciação [oferecimento] pelos pecados do
povo" (Hebreus 2.17).

A salvação é um presente que precisamos desembrulhar, não uma condição
a conquistar. Jesus conquistou nossa salvação ao morrer na cruz em
nosso lugar (1 João 4.9,10).

Fonte: http://www.revistaenfoque.com.br/index.php?edicao=85&materia=1140

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